ALBERTO DINES
PERFIL

Alberto Dines nasceu em 19 de fevereiro de 1932, no Rio de Janeiro. Filho de Israel Dines e Raquel Dines, ambos imigrantes judeus de origem polonesa, cursou o primário e o ginásio em colégios israelitas. Ajudou a organizar o boletim estudantil Horta da Vitória, no Ginásio Hebreu Brasileiro. Fez científico (hoje ensino médio) no Colégio Andrews, Rio de Janeiro.

Iniciou sua trajetória profissional em 1952, quando trabalhou como crítico de cinema da revista semanal Cena Muda, no Rio Janeiro. No ano seguinte, o jornalista Nahum Sirotsky, chefe de reportagem da revista Visão, o convidou para trabalhar como repórter e fotógrafo de assuntos culturais na publicação.

Em 1956, Nahum Sirotsky foi convidado para dirigir a revista Manchete e levou Alberto Dines para trabalhar com ele. Na Manchete, Dines ocupou os cargos de assistente de direção e secretário de redação. Após a saída de Sirotsky, dividiu a tarefa de dirigir a revista com o jornalista Darwin Brandão. Dois anos depois, pediu demissão da revista e montou uma empresa de prestação de serviços na área de comunicação. Foi contratada por Samuel Wainer para montar e editar o caderno cultural de Última Hora,em formato tablóide.

Com o sucesso do caderno, Samuel Wainer convidou Alberto Dines para assumir a direção da edição matutina de Última Hora, em 1959. Ainda nesse ano, Dines passou a comandar também a edição vespertina do jornal. No ano seguinte, aceitou o convite de Wilson Figueiredo e João Calmon para dirigir o Diário da Noite, da cadeia dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, e transformou o jornal em um tablóide vespertino.

No início de 1961, Alberto Dines foi demitido por Chateubriand. Mas, logo depois, foi convidado por Adolf Bloch para ser editor-chefe da revista Fatos e Fotos, lançada em 31 de janeiro daquele ano. Dines levou para revista jovens quadros do jornalismo, como Carlos Leonam, Paulo Henrique Amorim e Itamar de Freitas. Durante este período também atuou na direção da Tribuna da Imprensa que, na época, era de propriedade de Nascimento Brito, proprietário do Jornal do Brasil.

Em 1962, Dines assumiu o cargo de editor-chefe do Jornal do Brasil e pôs Carlos Lemos, antigo editor de esportes, como secretário do jornal. Em 1964, foi enviado pelo jornalpara fazer um curso junto com outros editores latino-americanos na Universidade de Columbia. No fim do curso, fez estágios em jornais norte-americanos, como o New York Times.

Essa experiência nos EUA inspirou Dines a criar novas estruturas para o Jornal do Brasil. Entre elas, destacam-se o Departamento de Pesquisa, que reunia informações para permitir aos repórteres contextualizarem melhor as notícias; os Cadernos de Jornalismo, publicação cujo objetivo era discutir os aspectos técnicos e redacionais do da profissão; a editoria de fotografia e a Agência JB.

Paralelamente ao cargo de editor-chefe do Jornal do Brasil, Alberto Dines passou a lecionar a disciplina de jornalismo comparado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Em 1965, elaborou a cadeira de teoria da imprensa na mesma instituição.

Em 1973, Alberto Dines foi demitido do Jornal do Brasil. Conforme depoimento do jornalista ao Pasquim, o motivo de sua demissão se deu pelo fato dele não aceitar a censura imposta pelo jornal e discordar das atitudes do responsável pela segurança da empresa. No ano seguinte, Alberto Dines deixou a revista Fatos e Fotos e viajou para os Estados Unidos onde exerceu, por um ano, o cargo de professor visitante da Universidade de Colúmbia.

Dines regressou ao Brasil em 1975 e foi convidado por Cláudio Abramo, diretor de redação da Folha de S. Paulo, para assumir a chefia da sucursal carioca e assinar uma coluna no jornal. Entre 1975 e 1977, Dines escreveu uma coluna diária na Folha sobre assuntos gerais e criou uma outra coluna, publicada apenas aos domingos, intitulada Jornal dos Jornais, com o intuito exclusivo de efetuar uma análise crítica do trabalho da imprensa.

Em 1977, Lourenço Diaféria escreveu um artigo sobre a semana da Pátria considerado ofensivo ao patrono do Exército, Duque de Caxias. A Folha de S. Paulo foi acusada de ter em seus quadros subversivos e ameaçada de ser enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Diante das ameaças dos militares, a direção do grupo afastou Cláudio Abramo da direção do jornal e o substituiu por Boris Casoy. Além disso, acabou com as duas colunas escritas por Alberto Dines, a diária e o Jornal dos Jornais.

Um ano depois, Alberto Dines voltou a escrever seus textos na Folha, junto com outros dois colunistas permanentes do jornal: Cláudio Abramo e Samuel Wainer. Em maio de 1979, eclodiu a greve dos jornalistas de São Paulo, e Dines liberou os funcionários da sucursal para participar do movimento. Logo depois, pediu demissão do seu cargo de chefe da sucursal, permanecendo apenas como articulista do jornal.

Em 1980, Dines foi demitido da Folha por Boris Casoy por escrever um artigo condenando a ação da polícia paulista que, sob o comando do governador Paulo Maluf, exerceu intensa repressão à greve dos metalúrgicos do ABC paulista. Ainda neste ano, se tornou colaborador do semanárioO Pasquim, no qual reeditou a coluna Jornal dos Jornais,eescreveu a biografia do escritor Stefan Zweig.

No ano de 1982, assumiu o cargo de secretário editorial da Editora Abril em São Paulo, se envolvendo na criação de revistas, cursos de extensão e aperfeiçoamento de jornalistas na empresa. Em 1988, se mudou para Portugal onde passou a exercer as funções de diretor do grupo Abril, consultor editorial da Sojornal, empresa responsável por editar os jornais O Expresso, maior semanário português, e A Capital, o único vespertino daquele país.

Ainda em Portugal, Alberto Dines exerceu o cargo de diretor da empresa Jornalistas Associados,prestadora de serviços na área de consultoria de empreendimentos jornalísticos naquele país e no Brasil. Lá, também criou, em 1994, o Observatório da Imprensa. De volta ao Brasil naquele ano, organizou o Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Paralelamente, se tornou colunista da revista Imprensa, na qual, entre agosto de 1994 e setembro de 1995, procurou fazer uma espécie de media criticism.

Em abril de 1996, lançou a versão eletrônica do Observatório da Imprensa, uma arena debates do jornalismo voltado para a comunidade jornalística (profissionais de imprensa, professores e estudantes de jornalismo) e para membros de outras comunidades, entre quais acadêmicos de diversas áreas, profissionais do direito e pessoas comuns.

Em maio de 1998, O Observatório da Imprensa entrou no ar pela TV Educativa do Rio de janeiro. Alguns meses depois, passou a integrar a programação da Rádio e Televisão Cultura de São Paulo com Alberto Dines sendo o principal apresentador do programa.

Ainda em 1998, Dines passou a integrar o grupo de colunistas do Jornal do Brasil. É o responsável pelas edições televisiva e online do Observatório da Imprensa.

DEPOIMENTO

Entrevista com Alberto Dines

Realizada por Adriano Belisário, Pedro Willmersdof, André Duchiade e Millos Kaiser
Data: 20/06/2007


Você poderia falar um pouco da sua origem. Onde e quando você nasceu?

Eu nasci no Rio de Janeiro. Aliás, nasci na Beneficência Portuguesa. Meus pais moravam pertinho, duas ruas adiante, numa pensão na Correia Dutra. Naquela época, havia pensões não só no Flamengo, mas também na Tijuca e em vários lugares. Eram casarões grandes, onde moravam famílias sem posses para montar uma casa, comiam lá e tudo. Eu próprio, em minha infância, morei em pensão também. Era muito habitual. Meus pais moravam ali, e eu nasci pertinho. Meu pai nasceu na Rússia, na Ucrânia. Só que, nos anos 1920, aquilo era Polônia. Depois da Primeira Guerra Mundial, o império russo diminuiu muito, e a Polônia – que estava subjugada há 300 anos – recuperou o território que ela reclamava. Então, meu pai nasceu russo, mas foi logo pego pelo exército polonês e serviu lá por três anos, pois o serviço militar era obrigatório. Era uma forma de nacionalizar a juventude. Ele serviu na artilharia. Depois, terminou o exército. Ele era socialista, sionista-socialista, e muito militante. Ele tinha feito um curso de secretariado. Naquela época, secretariado envolvia contabilidade, administração. Ele sabia todos os princípios de administração daquela época. Era um bom organizador. Ligou-se aos movimentos em um período muito difícil. Havia muita fome, perseguições contra os judeus, grandes movimentos migratórios. Ele se ligou a uma organização internacional justamente para organizar a saída dos judeus. Isso muito antes do nazismo. O nazismo começou depois. Estou falando dos anos 1920. Ele se ligou a essa organização. Aliás, ele se ligou a duas: uma, pertencente a Israel, quero dizer, não existia Israel, à Palestina, que era uma organização política. A outra era uma organização assistencial, como o terceiro setor de hoje. Ele era muito ativo nisso. Só que a situação econômica era terrível. A Polônia não tinha criado uma base econômica, o país tinha começado em 1919. Ele resolveu sair e veio para o Brasil, justamente trazido por essa organização. E, aqui, durante 25 anos, ele ajudou a organizar uma série de instituições ligadas à imigração, para ajudar os imigrantes mais pobres. Criaram uma policlínica na Praça da Bandeira com médicos judeus e não judeus. Ele foi muito ativo. Ele era um militante se não 24 horas, pelo menos 18 horas por dia. Ele trabalhava nessas coisas todas. Então, era um ativista profissional. Minha mãe tinha outro passado, a família dela era rica. Ela estudou em ginásio. Naquela época, ginásio era um negócio importantíssimo. Ela falava muito bem várias línguas, era cultíssima. Mas não trabalhava. Nascemos eu e meu irmão no Rio. E é essa história.


Sua mãe, nascida na Ucrânia, veio para o Brasil nos anos 1920 também?

Ela veio uns dois anos depois do meu pai. Era normal. Primeiro, veio o marido para arrumar emprego. Depois, veio ela.


E esse mundo socialista que você tinha em casa influenciou sua formação? Você freqüentou escolas judaicas?

Muito. A minha casa sempre foi uma casa muito marcada por isso. A comunidade judaica no Rio de Janeiro e no Brasil (aliás, no mundo todo) estava divida em três grupos: os religiosos, que estavam pensando em Deus, os sionistas e os internacionalistas, a esquerda próxima do comunismo. O comunismo era muito próximo dessa questão, pois o comunismo é internacionalista. Ele não admitia uma solução judaica nacional, achava que o problema dos judeus era o problema de qualquer povo. Mas os judeus tinham um problema nacional. Há 2000 anos, eles tinham perdido, digamos, sua ligação com o solo. Então, criou-se um movimento comunista judaico, mas nacional. Era uma certa contradição, mas não era tão contraditório assim. Eles eram muito ativos. Eram de uma linha auxiliar do Partido Comunista. E tinha o outro grupo, que eram os judeus sionistas, de várias tendências (que iam da extrema esquerda sionista até a direita sionista), mas o objetivo comum era fazer um estado na Palestina. Havia várias soluções, não é? A esquerda sionista tentava um estado binacional, que talvez deveria ter sido a solução. A direita achava que tinha que ser um estado uninacional, ocupando todo território bíblico que ia das margens do Suez até o Líbano. Bom, então, esse era o panorama. Eu diria que a minha casa era muito marcada por essa militância e muito ligada a esses problemas. Eu lido com jornal desde cinco anos. Meu pai tinha assinatura de jornais. Outro dia achei, numa caixa de madeira, um brinde escrito O Jornal. Então, nós líamos jornal desde sempre. Eu me acostumei com isso. Eu comecei a ler com gibi semanal e, sobretudo, com gibi mensal, que era mais gordinho. E era um acontecimento. Uma vez por mês, meu pai me dava uns tostões. Eu ia até a banca e voltava andando e lendo pela rua. Era um horror, porque eu podia ser atropelado. Quer dizer, a leitura, mexer com papel e com livro, me marcou desde a infância. Meu pai tinha uma biblioteca no escritório dele, em casa. Eram livros muito bonitos, muito bem encadernados. A maioria ele tinha trazido de lá, outros ele mandou vir dos EUA. Era uma biblioteca muito bonita, com uma estante linda. Eu tenho um amigo mais velho do que eu, que era meu vizinho naquela época, e diz: "Puxa, eu entrava na sua casa, via aqueles livros e achava um encantamento!". E, justamente nesse escritório do meu pai, tinha uma fotografia pendurada, autografada para Israel Dines e assinado por Stefan Zweig. Stefan Zweig foi o escritor austríaco que escreveu Brasil, o país do futuro, do qual eu fiz uma biografia muito influenciado por essa fotografia pendurada no escritório do meu pai. Essas coisas todas não se perdem. O que acontece numa vida não se perde, acaba gerando, provocando. Isso nos faz pensar também pelo lado negativo. Um jovem bandido é assim porque recebeu os inputs errados. Se tivesse recebido bons inputs não seria o que é. Não estou querendo dizer que a bandidagem é inocente, porque tem livre arbítrio, pode escolher, mas a gente tem que pensar também na sociedade que não dá bons estímulos para as pessoas. Eu recebi excelentes. Vivi modestamente, mas recebi bons estímulos. E isso resultou nas coisas boas que fiz.


Você se considera um autodidata?

Totalmente. Aos quinze anos, no segundo científico, eu decidi parar de estudar. Mas não porque eu era mau aluno, nada disso...


A coisa socialista...

É. Eu era ligado a um grupo sionista-socialista que pretendia ir para a Palestina fazer o estado socialista. Então, o diploma era uma coisa burguesa, tinha que abandonar isso.


Seu pai apoiou essa iniciativa?

Eles não se chatearam. Aliás, foi uma coisa muito boa. Nós víamos os pais de outros colegas dizerem: "oh, meu filho parou de estudar etc". Meus pais não abriram o bico. Eu estudava no Andrews. Fiz uma segunda época, porque tinha ficado em matemática, se não me engano. Passei e tranquei a matrícula do segundo para o terceiro científico. E fui trabalhar numa oficina de automóveis, porque era obrigado você ter uma profissão manual. Eu gostava de escrever, claro, mas eu queria fazer cinema. E cheguei a fazer cinema.


Foi através dele que você entrou no jornalismo?

Sim. Foi através da crítica de cinema. Como na época não tinha uma indústria, eu trabalhava como assistente de vários diretores. Mas ninguém pagava nada, então não dava para viver de cinema. Eu já estava com 18 anos. Aí, me convidaram para fazer a crítica de cinema de A Cena Muda. Era uma revista semanal de cinema, muito popular. Mas o diretor queria uma página de crítica mais sofisticada. Eu tinha 18 anos... [risos] Era muito pretensioso e achei que devia fazer isso. E foi muito bom. Todo dia, eu tinha que ver um filme, porque naquela época eles não ficavam muito tempo em cartaz. Então, eu tinha que ver pelo menos um filme por dia para fazer uns seis ou sete por semana. Foi muito bom, pois eu frequentava os ambientes jornalísticos da cidade. Você tinha aí alguns pontos. Tinha o Café Vermelhinho, em frente à ABI [Associação Brasileira de Imprensa]. Hoje não tem mais nada lá. Você tinha depois uma leiteria chamada Alzadia na Cinelândia, acho que existe até hoje. Enfim, eu frequentava estes pontos, todo mundo se encontrava ali. E um conhecido me convidou para ser repórter de assuntos culturais da revista Visão. A revista Visão foi a primeira revista em "formato Veja", em formato americano, do Times. E tinha carteira assinada, tudo certinho. Eu ganhava, para aquela época, um excelente salário: dois mil cruzeiros. Era excelente, muito bom. Logo depois, eles se transferiram para São Paulo. A revista era americana e eles perceberam que, em São Paulo, a revista ia estourar. Era uma publicação muito voltada para economia e política. Eles me levaram para São Paulo e me aumentaram, porque era obrigado a aumentar. Eu cheguei a São Paulo em 1953, no auge. Teve uma minissérie da Globo, Anos Dourados, interessante, pois resgatou uns pedacinhos, uns fragmentos dessa época. Eu cheguei justamente nos preparativos para a segunda Bienal e para o quarto centenário da cidade. São Paulo assumiu sua condição cultural. Eu cobria a área da cultura numa fase em que o cinema brasileiro estava começando a nascer. Havia a Vera Cruz, a Maristela, a Multifilmes, a empresa do Cavalcanti, Kinofilmes. Foi um período muito bom, muito interessante. Logo após a morte do Getúlio, do ponto de vista jornalístico, foi extraordinário. E, como eu gostava de cinema, eu fiz dois roteiros de filmes longa-metragem que saíram. Um deles foi recuperado agora: O Craque, o primeiro filme brasileiro sobre futebol. Uma comédia, nada significativo. O filme está sendo recuperado, acho até que já foi. A menina, herdeira do produtor, mora no Rio. Fiz alguns filmes, mas o negócio do jornalismo era full time, profissional. E eu fotografava. Pelo meu passado no cinema, eu sabia mexer bem com câmera. Fiz até algumas capas para revista Visão. Quando eu viajava, fotografava e escrevia. Aliás, era uma característica de muitos jornalistas desta geração. Jânio de Freitas fotografava muito bem. Carlos Lemos também fotografava. Um que morreu há pouco tempo em Roma, Araújo Neto, era grande fotógrafo. Luís Carlos Barreto era fotógrafo, mas escrevia. A escola jornalística mundial daquele período do pós-guerra, era assim: o jornalista tinha de fazer as duas coisas. Não havia recursos para você mandar depois. Em geral, os repórteres que se destacavam, faziam as duas coisas.


Foi nessa época que ocorreu a reforma do Diário Carioca?

Eu não acompanhei diretamente, porque eu comecei no jornalismo em 1952. O ambiento jornalístico era muito pequeno. As pessoas se conheciam, freqüentavam os mesmo bares etc. Então, você conhecia todo mundo: o Castelinho, o Castelo Branco do Diário Carioca, o Pompeu de Souza, que foi quem introduziu o lead. Mas, veja bem, hoje a gente diz o Diário Carioca fez uma revolução. Mas, na época, você não tinha a dimensão, a perspectiva de perceber que isso era uma coisa extraordinária. Eu já escrevi vários artigos sobre isto. O período de 1952 até 1955, mais ou menos, foi o período de ouro da imprensa brasileira e da imprensa do Rio, que era a capital. Então, nasceu a Última Hora. Ou melhor, em 1949, surgiu a Tribuna da Imprensa, na Rua do Lavradio, do Lacerda. Era um excelente jornal. Dizem: "Ah, era um jornal de direita" De direita ou de esquerda, Lacerda era um excelente, um grande jornalista. Muito viajado, ela sabia o que se fazia de bom nos EUA e na Europa.


Você teve alguma relação com ele?

Eu tive depois, uma relação muito boa. Mas isso quando ele foi governador. Ele sabia o que se fazia de bom e o jornal dele era muito bem escrito. Tanto que a maioria do pessoal do Diário Carioca foi trabalhar na Tribuna. Ou seja, a Tribuna – depois do Diário Carioca – foi o jornal que adotou todos os princípios da redação. Então, você teve a Tribuna em 1949, o Diário Carioca em 1950 e a Última Hora em 1951. Em 1952, surgiu a revistaManchete e a Visão, a revista que eu trabalhava. O Cruzeiro, por causa da Manchete, foi obrigado a se reciclar rapidamente, porque era muito mal feita. Começou a chamar grandes fotógrafos.


Você trabalhou na Manchete também?

Depois, em 1956, mais ou menos.


Como se deu essa transferência para a Manchete?

Eu trabalhei cinco anos na Visão. Quem me levou para a revista foi o jornalista Nahum Sirotsky, que está vivo e mora em Israel. Ele era meu chefe, chefe de reportagem. Foi ele quem me levou e, realmente, me deu a primeira chance, primeiro empurrão. Depois, ele foi convidado para dirigir aManchete em 1956, no período Juscelino. Aí, ele me levou como repórter e, depois, me colocou como assistente de direção para eu ter um salário melhor. Mas eu fazia reportagem e ajudava o chefe de reportagem. Mas, ele teve que se licenciar. Aí, ele pegou os dois assistentes de direção: um era eu e o outro era um grande jornalista, mais velho que eu, já falecido, infelizmente, chamado Darwin Brandão, baiano. E falou "então, vocês dois dirigem. Vocês fazem uma equipe e eu dou uma supervisão, escolho a capa". Ele passou um período difícil. E assim foi... Eu tinha poucos anos de jornalismo e era encarregado de fazer a revista. Darwin Brandão, grande jornalista, experiente, era o chefe de reportagem e dizia o que fazer. Eu ajudava a paginar, editar a revista. E isso foi muito interessante, porque minha experiência de cinema ajudou muito a montar, a fazer as diagramações. E isso em francês até se explica, porque direção em francês é mettre en scène. É quem faz a cena, faz a coisa se realizar. E paginar em francês é mettre en page: botar na página. Uma coisa é botar em cena, outra é botar na página. Em francês, isso faz muito sentido e, para nós, também. Porque, na realidade você está pegando uma história e montando ela aqui em duas ou em três dimensões, mas o processo é o mesmo. Então, a gente funcionou muito bem. Só que era uma coisa curiosa. Eu, com tão poucos anos de vida profissional, era o segundo homem na hierarquia da revista. Em alguns casos, tinha umas coisas que eu tinha que resolver. Foi um grande desafio. Eu fiquei uns quatro anos na Manchete. Não pude fazer grandes reportagens, mas fiz algumas interessantes. Fiz duas viagens internacionais e foi um desafio muito interessante para mim.


De lá, você foi para onde?

Eu tentei fazer uma revista nova, mas não deu certo.


Nos moldes da Manchete?

Não, não. Era uma revista nos moldes da Visão, uma revista de economia e política. Aí, eu fiz uma coisa inovadora: eu peguei um grupo de jornalistas e fizemos uma redação para prestar serviço. A palavra não era essa, não havia nem a palavra terceirização, mas, no fundo, o que eu queria era terceirizar. Fomos ao Jornal Brasil. Levamos o projeto de fazer uma revista semanal encartada. Nós entregaríamos a revista pronta. Hoje, isso se chama terceirização. Naquela época, o nome não era esse, mas era uma forma de facilitar. E, depois do Jornal do Brasil, que não topou, fomos ao Samuel Wainer, que já tinha me convidado tempos atrás, quando eu trabalhava na Manchete, para trabalhar na Última Hora. Ele era um grande jornalista, talvez um dos maiores jornalistas que apareceu por aqui. Ele me viu um dia num baile de carnaval no Teatro Municipal fotografando e ficou impressionado. "Pô, esse garotada fotografa depois vai lá e redige". Eu sei que, na quarta-feira de cinzas, ele me telefonou e perguntou se eu não queria trabalhar com ele. Eu falei: "Não posso, eu estou aqui, não dá". Mas, depois que eu saí da Manchete, fui levar o projeto de um segundo caderno para Última Hora, em formato de tablóide. E ele falou assim: “Olha, está bom, vamos fazer. Mas eu vou botar isso na edição matutina, que saiu agora e está ruim. Vamos enriquecê-la”. Aí era assim. Trabalhávamos lá, mas ele pagava somente a um, que era eu, e nós dividíamos o dinheiro. Não tinha contabilidade, não era uma empresa, era tudo ilegal. Nós não estávamos registrados, não tínhamos recibo, não tínhamos nada. Trabalhamos assim algum tempo, até que ele decidiu acabar com essa brincadeira: “Os que estão fazendo a revista, vão trabalhar aqui mesmo”. Trabalhava conosco a cunhada do Samuel, a Nara Leão. “Põe a Narinha ai para te ajudar, ela fala francês, inglês.” Foi assim que conheci a Danuza, como secretária. A gente fazia um jornalzinho de cultura, que ficou muito bom, até que Samuel decidiu botá-lo nas duas edições. Ele disse: “Deu certo, então você vai dirigir a edição matutina”. E eu nunca tinha trabalhado em jornal. Isso foi em 1958, 1959. Minha experiência era de revista. Cheguei lá e tinha umas manobras da Marinha Brasileira com a Marinha Americana. Caiu na minha mesa uma fotografia linda, de um barco americano, na entrada da barra. Aí eu abri a foto, 8 colunas, mas não era revista, era jornal. O Samuel ia toda madrugada ver o jornal rodar e disse “Está bonito, mas não é revista, aqui é jornal”.


Você e o Samuel Wainer tinham uma boa relação?

Ele era o rei do esporro. Não falava sem dar esporro. Hoje, tenho uma teoria de que o esporro nunca é em vão, não se perde. Você dá um esporro e, mesmo que seja injusto, você está ensinando uma coisa boa. Ele era um jornalista às antigas, emotivo. Achava que a edição do jornal tinha que ser perfeita como um livro. Samuel era intenso. Depois, fui fazer as duas versões, matutina e vespertina. Não aguentei. Dormia duas vezes por dia. Quatro horas num período, quatro horas no outro. Meu casamento foi atrapalhado, não via meus filhos. O trabalho na Última hora era muito complicado, politicamente complicado. Ele era cheio de compromissos.


No livro de memórias do Samuel Wainer, ele fala sobre relações obscuras que ele mantinha com políticos e o poder. O que você acha disso?

Ele admitiu essas coisas no livro porque precisava e admitia na época também. Primeiro, falava das suas relações com Getúlio Vargas, para criar o jornal. Carlos Lacerda o denunciou no episódio do Banco do Brasil.


E o que você fez depois de trabalhar na Última Hora?

Da Última Hora, eu fui para o Diário da Noite que tinha 200 mil exemplares e caiu para oito mil. Assumi querendo mudar tudo, formato, horário de saída... Queria fazer um tablóide no estilo inglês, que gosto muito. Queria fazer uma coisa sacudida, popular, mas bem feito. João Calmon topou e fizemos um jornal muito bonitinho. Chegávamos às 5h e começávamos do zero. Até a coluna social era feita de madrugada. Era muito bem feitinho. Lacerda viu o jornal e gostou muito. Foi visitar a gente e adorou. Denunciamos a imprensa marrom e criamos essa expressão, que vinha de imprensa amarela. Colou até hoje. Esse pessoal ligado à política começou a nos ameaçar de morte, e o Lacerda nos protegeu, prendeu esse pessoal. Fiquei pouco tempo no Diário da Noite, pois Assis Chateaubriand era cheio de compromissos políticos. Houve o seqüestro de um transatlântico português. Foram rebeldes anti-Salazar que seqüestraram e o Chatô, que era ligado ao ditador, proibiu a reportagem. Eu recebi o material de um repórter que lá estava e botei na capa, com fotos grandes. Fui demitido. Fui convidado, então, para fazer uma revista popular em preto e branco: Fatos e Fotos. Eu peguei o número dois. A revista pegava sobras da Manchete e usava. Era muito bem impressa. Fiquei de 1961 a 1962. Fiquei lá e no Diário da Noite. Era comum juntar dois empregos. Era bastante sacrificante, mas eu, como não era boêmio, conseguia levar. Depois fui para o Jornal do Brasil, JB,com um pedido de desfazer a reforma pela qual ele tinha passado seis anos antes. Eu neguei, propus mudanças graduais que ninguém ia perceber. No JB, fiz as coisas devagarzinho. Mantive o diagramador, Amílcar de Castro. Fui fazendo aos bocadinhos umas coisas imperceptíveis, usando a filosofia de 1956. Fiquei lá quase doze anos.


Como era o Jornal do Brasil durante a ditadura militar?

Eu cheguei lá em 1962. Estava no jornal durante o AI-5. Teve aquela famosa página sobre o Allende, quando tentamos burlar a Censura. Fomos proibidos de dar a queda do Allende. Era um período vergonhoso, da autocensura, da censura imposta pela Policia Federal e aceita pelos donos de jornal. Mas fizemos um pôster com muita força gráfica, um escândalo. Esgotou em minutos. Obviamente, fui demitido por indisciplina. Depois, fui para os EUA. O ministro da Justiça havia embargado meu nome, e eu não conseguia ter empregos nem quando era requisitado pelos contratantes, como aAbril. Fui, então, para Columbia, nos EUA, participar de um projeto. Lá, Cláudio Abramo foi me visitar e perguntou se eu não queria ir para a Folha de S. Paulo, um jornal que buscava seu espaço.


Foi aí que você iniciou o Jornal dos Jornais?

Foi. Nos EUA, eu observava a discussão que acontecia durante o caso Watergate. Falava-se muito sobre o papel da mídia no processo todo. Eu achava que tínhamos que fazer aquilo no Brasil. O Frias disse “não se mete nisso, você vai arranjar um monte de inimigos”. Mas mesmo assim, fui fazendo.


Falemos, então, um pouco sobre a gênese do Observatório da Imprensa, que é completamente relacionado a isso, certo?

O Jornal dos Jornais é, digamos, o avô do Observatório de Imprensa. No Jornal do Brasil tinha os Cadernos de Jornalismo, que seguia a mesma ótica. Tive a ideia a partir de uma visita que fiz ao New York Times, que fazia algo parecido. Depois do Jornais dos Jornais, teve a experiência noPasquim, com o Jornal da Sexta.


E como foi no Pasquim?

Foi divertido. Eu fui demitido da Folha de S. Paulo por razões políticas, aí o pessoal do Pasquim falou: “vem aqui nos ajudar”. Eu estava escrevendo o livro sobre o Stefan Zweig, então argumentei que tinha prazo para terminar de escrevê-lo e tal. Mas eles disseram que eu só precisava ir trabalhar às sextas-feiras de tardinha e às segundas, para o fechamento. O Pasquim era feito assim, em dois dias, com todo mundo discutindo. Então, eu aceitei e fiquei lá nos anos de 1980, 1981 e um pedaço de 1982. Depois, eu fui para São Paulo, pois eu não consegui emprego no Rio. Ainda tinha aquele embargo ao meu nome.


Você chegou a voltar para o Jornal do Brasil depois, não?

Não, não. Muitos anos depois virei colunista deles. Eles compravam artigos meus. Mas nunca mais voltei para lá, não. Mas, na Editora Abril eles me chamaram como consultor para acompanhar algumas revistas femininas. E eu falei: “tá bom, vamos em frente”.


Na sua opinião, qual é o papel principal do Observatório da Imprensa, num contexto de redemocratização da política brasileira?

A gente começou com a redemocratização já tendo ocorrido há dez anos. O Tancredo assumiu em 1985, nós começamos em 1996. Ou seja, 11 anos depois. Mas a verdade é a seguinte: nós criamos o instituto, este trabalho teórico, vamos chamar assim, em 1994. Eu estava morando em Portugal e observava a imprensa brasileira pensando: nós estamos desperdiçando a democracia. Apesar da derrubada do Collor, a imprensa estava cada vez pior. Inclusive os métodos para derrubar o Collor, a gente sabe, não foram, jornalisticamente, os mais corretos. Inventava-se e, depois, ia se buscar as provas. Pensei que a gente devia fazer uma discussão como foi a de Watergate. Aproveitar esta vitória para discutir. Então, criamos na Universidade de Campinas o Labjor, Laboratório de Jornalismo. O Labjor fez uma série de coisas e um dos seus projetos era levar a discussão sobre a mídia da academia para a sociedade. Mas como fazer isso? Dinheiro para uma revista não havia, um programa de televisão era impensável, pois só tinha TV aberta naquela época. Então, um amigo nosso falou: “vamos fazer na Internet”. E a gente começou a fazer na Internet, sem data, sem periodicidade. Mas se era um veículo de jornalismo, devia ter periodicidade. Aí, passamos a fazer quinzenalmente. Pensei nisso também porque assino o quinzenal americano New Yorker desde os anos 1970. Ainda achávamos que demorava muito, aí passamos a fazer semanal. Nesse período que decidimos pela semanalização, o UOL estava começando e decidiu nos hospedar lá. Foi ótimo, pois passamos a ter uma exposição fantástica. Criamos o site e, logo depois, a TVE entrou em contato perguntando se não queríamos fazer um programa parecido com o site. Eu disse que não. Disse que queria fazer um programa igual ao site, pelo menos com o mesmo nome. Aí, criamos o Observatório da Imprensa na televisão. Isto foi em 1998. O programa vai ao ar às terças-feiras. Antigamente, ia mais cedo, agora ele é exibido um pouco tarde. E, em 2005, fomos para o rádio, onde o programa é diário. No Rio, na Rádio MEC, vai ao ar às 10h. Em São Paulo, às 9h e em Brasília, ao meio-dia. E vamos criar mais um produto. Não posso dizer ainda o que é, mas viremos com um novo produto. Por que, então, o Observatório deu certo? Deu certo porque é um veículo jornalístico, não é uma discussão acadêmica. Ele faz a discussão sobre a mídia dentro de um veículo de comunicação. Esse é o segredo. Se nós fóssemos fazer uma coisa acadêmica, apenas com palestras e seminários, ia faltar oxigênio. Nós fizemos um programa e, dentro dele, discutimos jornalismo. E é isto que chama atenção, por exemplo, em outros países da América Latina, onde já fizemos vários seminários. Eles ficam bobos, porque eles fazem essa discussão na academia, em instituições separadas, mas nunca ocorreu ter essa discussão dentro da mídia mesmo. Claro, tem que ser uma mídia alternativa, pois a grande imprensa não vai querer bancar isso. Essa foi a fórmula de sucesso: discutir a mídia na mídia. Através de uma mídia, no máximo possível, caprichada. Por exemplo: ontem [19/06/2007], no programa da televisão, a gente discutiu sobre histórias em quadrinhos. Porque na semana anterior, Lula, Chávez, Tony Blair, todo mundo estava falando mal da imprensa. Então, nós pegamos heróis de quadrinho que eram jornalistas – Tin-Tin, Clark Kent, Capitão Marvel, Homem Aranha – e fizemos um programa só sobre histórias em quadrinhos relacionadas à imprensa. Foi um programa divertidíssimo, agradável, apesar do horário que eu não gosto [o Observatório da Imprensa vai ao ar todas as terças-feiras, às 22:40 hs, pela TVE]. Então, nós oferecemos um bom programa de televisão e, dentro dele, nossas mensagens sobre imprensa, sobre mídia. Eu acho que esse é o segredo. Não adianta fazer uma coisa fechada, acadêmica, senão não oxigena, não tem resposta, não tem correções, ampliações.


Você entende a graduação em jornalismo como uma coisa benéfica à profissão? Aliás, você não tem diploma, né?

Não, não. Eu acho que você deveria ter pós-graduação em jornalismo, como é nos Estados Unidos. Há os chamados mestrados profissionalizantes, onde o sujeito forma-se no que for e depois faz dois, três semestres para se formar em jornalismo. Mas aí ele já terá uma bagagem cultural mais ampla. No Brasil, não é assim, pois as escolas de jornalismo, exceto as públicas, não funcionam desse jeito. Ainda assim, as públicas têm problemas, como a universidade de vocês, a UFRJ, por exemplo, que só ensina história do jornalismo durante seis meses. É preciso estudar a história da sua profissão, saber o que foi feito. E vocês estudam apenas um semestre. É ridículo. Então, eu acho que a graduação em jornalismo no Brasil pode até continuar, mas eu daria mais ênfase e estímulos à pós-graduação, ao mestrado profissionalizante. Eu vi em Columbia (EUA), onde fiquei um semestre, uma coisa extraordinária: o cara, no primeiro dia, já vai para a rua fazer uma matéria. Ou seja, quebra-se um cidadão e faz-se dele um jornalista em menos de 24 horas. Com todos os professores acompanhando, incentivando, ajudando com rádio, televisão e, agora, com a Internet, quando fica muito mais fácil. Mas essa é uma discussão que não vai acabar nunca, pois já há interesses estabelecidos. A indústria do diploma é muito forte. Nunca vi tanta faculdade de jornalismo espalhada pelo Brasil. Por outro lado, seria injusto com quem está começando agora. É uma questão muito complicada, como tudo no Brasil. Então, o melhor é deixar assim, descobrir como o mercado pode treinar e tentar criar pós-graduações profissionalizantes.

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