ALUIZIO MARANHÃO
DEPOIMENTO

Entrevista com Aluízio Maranhão
Realizada por Esther Medina, Giuliana Azevedo e Leandro Morgado
Data: 20/06/2008

Qual a data e o local do seu nascimento?

Eu sou paraibano, nasci em João Pessoa. Com oito anos, eu vim para o Rio de Janeiro. Isso foi em 1958. E fiquei no Rio. Meu pai e minha mãe se erradicaram aqui, como grande parte dos cariocas que nasceu fora. Nasci em 22 de dezembro de 1949.


Quais são os nomes e as profissões dos seus pais?

Aluizio Gomes da Silva e Maria Eugênia Maranhão. O meu pai era paraibano, empresário e tinha fazendas. Foi sócio de uma usina de açúcar no norte fluminense, que quebrou. E minha mãe estudou até o ginásio, mas, ainda assim, lia muito.


Como foi sua infância, sua adolescência? Quais os colégios em que estudou?

Morei e cresci em Copacabana. Nesse tempo, o Rio era outro. Passei minha adolescência no Rio de Janeiro. Minha mãe conseguiu uma vaga no Colégio São Bento e isso para mim foi fundamental, pois o São Bento era um belo de um colégio. Mas isso você só percebe depois de velho. Hoje, eu tenho três grandes amigos que foram colegas de turma e vários outros amigos e conhecidos que são daquele tempo. E, então, veio o regime militar. Eu vivi a experiência de fazer política estudantil num país que estava em grande ebulição. Isso foi em 1967. Tinha, dentro do Colégio São Bento, a Juventude Estudantil Católica (JEC). Nesse período, já havia um racha entre direita e esquerda. O país estava todo rachando. Também havia briga dentro das famílias. Era uma enorme confusão. Já havíamos passado pelo Golpe de 1964. A minha adolescência foi como a da minha geração, de quem morasse numa cidade grande como Rio ou São Paulo e fosse de classe média. Era tudo muito politizado. Tinha a Bossa Nova e uma ebulição cultural, apesar do regime militar. Depois, em 1968, houve um Golpe dentro do Golpe. Então, em 1968, fechou-se definitivamente o regime. Entre os colégios católicos, criou-se algo chamado “intercâmbio”. Era um movimento de intercâmbio entre o São Bento, o São Vicente, o São José e o Sagrado Coração de Maria, que era só de mulheres. O São Bento, que até hoje é assim, era só masculino. Aquilo, o intercâmbio, servia para você namorar, para ir a festas e servia para discutir política. Alguns se aprofundaram mais. Dentro da própria JEC, no São Bento, com um pessoal que era um pouco mais velho do que eu, houve um racha. Saiu gente que depois foi acusada de ser, dentro da universidade, agente do SNI; como saiu Frei Ivo do grupo dos dominicanos, Frei Beto. Então, a adolescência de quem tinha 18 anos, em 1968, era isso: as passeatas. E, com o AI-5, veio uma grande encruzilhada.


Como foi a passagem pela universidade?

Minha geração foi uma geração de um momento de transição, porque a profissão só foi regulamentada num decreto de 1969, se não me engano. Na minha geração, que tinha entre 18 e 19 anos nessa época, alguns conseguiram entrar nas redações sem precisar cursar a faculdade. Eu, por seis meses, tive que fazer a faculdade para ter o registro profissional. Havia uma brecha na lei que permitia trabalhar com o registro provisório. Tinha o de fotógrafo, por exemplo. O meu era de diagramador. Aí, eu fiz vestibular em 1969 e passei para a UFF [Universidade Federal Fluminense]. Depois, me transferi pra ECO [Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro]. Fiz jornalismo, comunicação. Mas levei oito anos para me formar. Eu não tinha tempo, porque ao mesmo tempo trabalhava. Então, me formei oito anos depois. Mas não fui pegar o diploma nem nada. Eu dirigia o Estadão com aquele registro de jornalista estagiário. Eu saí do Estadão em dezembro de 1998 e fui para a revista Época em março ou abril de 1999. Lá me pediram registro, e eu não tinha. Tive que pedir a uns amigos do Rio para ver na UFRJ, que nós chamávamos de “nacional”. Porém, tinha tido uma inundação, era um inferno. Só sei que um amigo conseguiu o diploma com o reitor.


Na sua opinião, o diploma é ou não importante no exercício do jornalismo?

Não é mal que o jornalismo seja uma profissão, digamos, de nível superior. Na verdade, eu acho isso legal. No entanto, ela tem umas especificidades tão grandes que você criar um cartório para fechar em cima de uma “profissão” é ruim para as redações e para os profissionais. Há engenheiros com grande espírito jornalístico e médicos também.


Algum acontecimento no período da adolescência foi decisivo para a escolha do jornalismo como profissão?

Todos nós discutíamos muito. Todo mundo lia muito. Então, tinha algo interessante de desafio intelectual e de entender o que estava acontecendo. E o mundo também estava assim. Havia movimentos em 1968 na França, a Guerra do Vietnã, a Guerra Fria. E o Pasquim. O Pasquim foi importante para a minha geração de jornalistas. Não só o Pasquim, também teve o Sol. A tal imprensa alternativa, quer dizer, os outros jornais, como Movimento, Opinião, só vieram um pouco depois. Ao ler textos do Ivan Lessa, do Paulo Francis, ver desenhos do Jaguar etc., vi que essa profissão me parecia interessante. Mas eu queria mesmo era ser arquiteto. Fui batalhar para fazer arquitetura e pré-vestibular. Cheguei a trabalhar como desenhista e vi que a vida era dura. Quando você pensa em ser arquiteto pensa em ser um Oscar Niemeyer ou um Maurício Roberto, outro grande arquiteto, mas a vida é mais dura.


Até você projetar alguma coisa, tem que viver de desenhar aquelas plantas baixas. Então, decidi fazer jornalismo. Mas como fazer jornalismo?

Naquela época, não havia um mercado de trabalho. Era muito diferente de hoje, embora houvesse até um maior número de jornais. Com a profissão recém regulamentada, restava bater na porta dos jornais. Você ia lá e conhecia alguém, que conhecia alguém. E o Jornal do Brasil, que era efetivamente o grande jornal do Rio de Janeiro e de influência nacional, já tinha se organizado para isso, para fornecer um curso para jovens que desejassem se tornar jornalistas. Esse curso era feito pelo Fernando Gabeira. Ele, um redator do Jornal do Brasil, era quem cuidava do curso. Gabeira foi seqüestrar o Elbrick e quem assumiu foi o Roberto Quintaes, que estava na clandestinidade, e foi embora. Uma namorada minha, na época, era amiga de alguém que era sobrinha de um cara que era diretor do Jornal do Brasil. Este cara disse para que eu fosse ao jornal porque havia um curso. Quando eu cheguei lá comecei o curso. Isso foi no segundo semestre de 1969, enquanto me preparava para fazer o vestibular. Fizemos esse curso eu e o Sílvio Boccanera. Ele está em Londres há muito tempo. É um cara brilhante. Erradicou-se lá. Ele foi free-lancer, trabalhou na TV Globo e foi correspondente do Jornal do Brasil em Washington. Fez belíssimas matérias pela América Latina. Nesse ano, eu e Sílvio saímos do curso. Ricardo Boechat não ficou no jornal, mas foi para a Rádio Nacional e depois, trabalhou com Ibrahim Sued. Aí, entrou no colunismo e ficou até hoje. Graça Monteiro também fez esse curso. E vários outros. Dava-se estágio (até hoje é assim) e durante o curso havia palestras de repórteres especiais e editores para entender o jornal. Na prática, começava-se a fazer matérias. Aí, o Roberto Quintaes, que foi quem ficou no lugar do Gabeira, analisava e criticava. Você girava o jornal todo. Saia com o repórter de esportes, de polícia e acompanhava o copydesk, que é algo que não existe mais.


Como foi a sua trajetória no Jornal do Brasil? Como era a redação do JB?

O Jornal do Brasil estava no auge. Era o jornal para onde iam os artistas e os poetas. Por ser na Avenida Rio Branco, volta e meia, tinha alguém lá batendo papo. O Caderno B era o grande agitador cultural da cidade, que era a Zona Sul. Hoje, a cidade é muito mais complexa. O JB era um jornal liberal, mas ficava contido, como toda a imprensa, fazendo a autocensura. A política tinha um repórter só.


Como a censura atuava no JB?

Havia os comunicados da Polícia Federal que chegavam à redação dizendo “isso pode, isso não pode”. Mas o JB não tinha um censor dentro do jornal. Porém, como toda a imprensa, era vigiado.


Você poderia citar matéria memorável do JB nesse período?

Eu vi de fora, porque já tinha saído do Jornal do Brasil e ido para o Jornal do Commercio. Com o Aluísio Bionde, houve tentativas de se fazer uma reforma, mas, com interferências de fora, não foi possível realizar. No entanto, há um período épico do Jornal do Brasil, quando aconteceu o golpe no Chile e a Polícia Federal comunicou que não se poderia dar a notícia nem com manchete e nem com fotos. Eu me lembro que eu estava no Jornal do Commercio e entrou um cara da Polícia Federal. Ele foi à sala da direção da redação, que era com o Bionde, deixou um papel e foi embora. Como eu já sabia que era algum problema, fui lá e soube que não se podia dar foto nem título para a queda do Allende. Aí, eu me perguntei, “como que se faz isso?”. E o Jornal do Brasil fez algo genial. Colocou um texto inteiro na primeira página com corpo grande, sem foto e sem título. Só que teve mais impacto do que se colocasse uma foto grande.


Depois do JB, quais foram as suas próximas experiências no jornalismo?

Eu fui escolhido para dar um estágio remunerado no JB. Comecei no JB e, em 1970, fiquei como autônomo. Em 1972, eles me contratam. Depois, o jornal se mudou para a Avenida Brasil. Nisso, surgiu o Opinião. Eu comecei a fazer uns free lances para o Opinião. Publicava com pseudônimo o que eu não conseguia publicar no Jornal do Brasil. Isso era normal. Se, por exemplo, você era de O Globo e tinha uma informação interessante ou uma análise, mas não dava para publicar por razões óbvias, escrevia para o Opinião. E começou a haver um pouco mais de abertura com o fim do governo Médici, com o Geisel tentando promover a abertura política. Mas era um momento muito perigoso, porque os falcões do regime reagiram contra o Geisel. E como é que eles reagiam? Dando porrada na esquerda. Então, volta e meia, havia um arrastão. Prendia-se várias pessoas e aplicava-se torturas. Era barra pesadíssima. Mas também havia aquele jogo duro em Brasília. Aqui, o Geisel conseguiu demitir o Sílvio Frota. Aí, eu fui para o Opinião. Com o governo Geisel já era possível, mas não era tão simples. Para se ter ideia, jogaram, de madrugada, uma bomba no jornal e quando chegamos lá, de manhã, havia um buraco. Isso é no final da década de 1970.


Como foi a sua passagem pelo jornal Opinião?

Eu fui para o JB, depois para o Jornal do Commercio, volto para o Jornal do Brasil e depois vou para as revistas técnicas da Editora Abril (que hoje não existem mais). Estas eram revistas especializadas: química e derivados, plásticos, transportes modernos etc. A Editora Abril tinha uma editora só para isso, que era a Abril-Tec. E tinha a Exame, que era a principal revista dessa divisão da editora. Eu tinha me especializado em petróleo. Eu fui para o jornalismo econômico. Minha área é economia, embora, com o tempo, eu fui obrigado a escrever sobre tudo: política, economia etc. Mas há uma faceta interessante da nossa geração, porque como a gente se interessou muito por política, os jornalistas de economia da nossa geração não são apenas econômicos. Bom, como eu era especializado em petróleo, eu cobria a Petrobrás. Eu fui para uma dessas revistas de química e derivados. Eu conheci o Ancelmo Góes lá. Ele era de metalurgia. Quando a Editora Abril resolveu vender essas revistas, alguns editores resolveram comprá-las, pois tinha gente que era engenheiro, químico e se interessava por isso, pois tinha muito a ver com eles. Como eu tinha um convite para ir para o Opinião, fui para lá e fiquei dois anos como editor de economia, até fechar o jornal. Agora, por que fecha o jornal? Porque houve censura, censura mesmo. O Opinião era do Fernando Gasparian e foi um jornal muito importante de resistência. Teve uma briga no Opinião e saiu o Raimundo Pereira, que fundou o Movimento, mais à esquerda. O Opinião, digamos assim, foi o produto editorial que representava a grande aliança contra a ditadura, formada por democratas, liberais e até uma fração de extrema esquerda. Quando o governo Geisel foi abrindo, começaram a haver disputas entre os grupos de oposição à ditadura. Então, o pessoal mais à esquerda saiu e fundou o Movimento. No último ano, eu fiz parte dessa equipe até que chegou o momento em que o Fernando Gasparian queria intervir muito no jornal. Como era um jornal político, você não tinha carteira assinada. Era considerado que parte do seu salário era pago em liberdade de escrever. Quando o patrão começa a interferir na sua liberdade de escrever, não dá mais certo. Aí, ele precisa te pagar mais, assinar a sua carteira. Chegou o momento que aquela grande frente política contra a ditadura se rompeu. O grande inimigo comum, o regime militar, já estava ficando fraco. Então, rachou aquilo ali. A razão de viver do Opinião era a ditadura e a possibilidade de se ter um espaço para divulgar. Tinha os direitos do Le Monde, do The Guardian, que era um jornal inglês mais à esquerda, um jornal interessante. Eu doei a minha coleção para a ABI [Associação Brasileira de Imprensa]. Também tem material nos arquivos, na Biblioteca Nacional. Então, o Fernando Henrique escrevia, o Paul Singer escrevia. A Opinião refletiu muito o pensamento da oposição daquela época. E para esmagar o jornal, o regime exigia que todo texto fosse xerografado e mandado para Brasília. Recusava-se a censurar o jornal aqui no Rio, o que era mais fácil. Assim, o Gasparian era obrigado a manter um cara em Brasília que ia ao aeroporto, não tinha Internet, e pegava aquilo tudo. Levava o material à Polícia Federal e deixava no balcão, na portaria. Dois dias depois ia lá pegar. Aí, vinha escrito: “não pode”. Em seguida, voltava para cá e fazia-se o envio por telefone. Nós já tínhamos feito todo o jornal, que era semanal, impresso e “montado”. No que você ia tirando, colocava uma tarja preta. Ali vinha escrito algo como “Leia o Opinião e assine”. Então, o governo abriu politicamente, e o Mino Carta saiu da revista Veja e fundou a Istoé. A IstoÉ se propôs a ser o primeiro produto derivado da imprensa alternativa com propostas comerciais, como pagar bons salários. Tinha um pouco o sonho de repetir o Le Monde, que virou uma cooperativa. Eu fiquei dez anos na IstoÉ.


Como foi a sua trajetória na revista IstoÉ?

Na IstoÉ, eu comecei como free-lancer, fazendo economia. Sérgio Augusto fazia cultura, e o Marcos Sá Corrêa fazia política. Mas cada um no seu canto. Eu trabalhava em casa. Isso foi no final da década de 1970. Eu fiquei na IstoÉ de 1979 a 1986/87. Escrevemos grandes matérias na IstoÉ. E era interessante, pois era muito diferente da Veja, onde todos os textos eram assinados e meio opinativos. Foi a tentativa de uma coisa nova.


Como era o mercado jornalístico da época?

A Folha vem com o seu Projeto Folha. Era o primeiro grande jornal a adotar uma agenda nossa em termos de opinião, temas como índios, conflitos de terra etc. Os grandes jornais não tratavam disso. Havia a editoria de opinião, mas os textos opinativos eram os mais clássicos da imprensa americana. Mas, por causa da censura exercida pela ditadura a certos temas, os grandes jornais se autocensuravam. Acabou resultando em confusão. Os regimes ditatoriais dividem contigo a ação da censura. A ideia é que você também se autocensure por temor.


Como foi a sua passagem pelo Estadão e pela revista IstoÉ, já no período de abertura política?

Em 1979, eu acho, a censura formal foi suspensa. No governo Geisel, a censura foi suspensa. Acabou, na verdade, quando Geisel demitiu o Sílvio Frota, em 1974 e 1975, e, depois, uns anos mais tarde, no governo Figueiredo. Claro que tinham os esquemas montados. Teve atentado à banca de jornal e o atentado no Riocentro. A situação não era tão complicada e a censura já não mais existia. Mas ainda havia ameaças, pois a vida não era um mar de rosas. Teve uma acomodação dentro de Exército e da Aeronáutica. E o pessoal dos porões da ditadura, a linha dura, ainda estava ali A IstoÉ acabou sendo o primeiro lançamento dos novos tempos. Lá, eu comecei como free-lancer e fiquei como diretor assistente de economia no Rio, onde depois chefiei a sucursal. Depois, fui ser editor-chefe em São Paulo. Morei na ponte aérea. Era um inferno. Isso foi em 1986. Aí, o Estadão entrou em reforma com o Augusto Nunes. Eu tinha um grande amigo que estava na equipe do Augusto, o José Paulo Kupfer. Então, eu disse: “José, fala para o Augusto que eu quero voltar para o Rio”. E combinei na IstoÉ que eu ficaria só mais uns dois anos na ponte aérea, pois eu não agüentaria mais. Aí, foi dito que em 1988 eu voltaria para o Rio e, depois, seria visto o que seria feito. Nisso, a IstoÉ foi vendida para o Fernando Moreira Salles, que tinha passado para a Gazeta Mercantil. E acabou coincidindo completarem esses dois anos com a volta do Mino Carta para a IstoÉ. Depois, eu saí e fui com o Boechat chefiar a sucursal do Estadão no Rio, com Suely Caldas cobrindo economia e Mirian Leitão com uma coluna. Eu fiquei no Estadão de 1988 a 1991, quando o Augusto Nunes saiu e me convidou para ser o diretor de redação em São Paulo. Então, eu fiquei no Estadão de janeiro de 1992 a dezembro de 1998.


Como foi a sua participação na denúncia do esquema fraudulento da BR Distribuidora, no governo Sarney?

O PC também andou pela Petrobrás. Antes do Collor, nós enfrentamos a turma do Maranhão. Hoje, o Sarney está aí, é um grande poeta... Tinha o Jorge Murad, que era o genro dele e marido da Roseana. Roseana Sarney tentou ser candidata à Presidência, mas descobriram com ela dinheiro vivo. E havia também um tal de Miguel Ethel, que era amigo do Murad, e que atuava no Planalto. Na verdade, todos atuavam no Planalto. Era Caixa Econômica Projetos Imobiliários. Era uma esculhambação. Minha participação no caso era que eu conhecia a Petrobrás antes da Suely Caldas e ajudava porque conhecia e telefonava para umas pessoas. A preocupação dos grandes jornais e dos grandes grupos de comunicação era natural para que não tivesse uma desestabilização política, posto que já havia uma enorme confusão econômica. Então, quando o Collor fez o tal governo de moralização, todos apoiamos. Ficamos de olho e preocupados, mas querendo a saída do presidente. Então, o Estadão e a Folha pediram logo o impeachment.


Como foi a cobertura das eleições de 1989 e o impeachment de Fernando Collor?

A grande imprensa não queria o Lula e apoiou o Collor como, digamos assim, um mal menor. No caso do Estadão, eu acompanhei a cobertura da campanha na sucursal do Rio. Collor assumiu em 1990. Nós estávamos fazendo uma matéria, com a Suely Caldas à frente, sobre um esquema terrível, o Partido Popular montado na Petrobrás. Já dava para ver que o governo estava uma loucura com corrupção e esquema alagoano brabo. Nos meus despachos com o Júlio Mesquita Neto, que era o Roberto Marinho do Estadão, nós tínhamos uma rotina. Eu, às duas e meia da tarde, conversava com ele e dava um briefing do dia. Depois, ele se reunia com os editorialistas. E eu alertando. Com o tempo, a gente ia arrumando um jeito de cobrir essa pauta. Nós estabelecemos um bom relacionamento. Cobríamos aquela situação. Foi quando ele disse: “Aluizio, cuidado com isso”. Havia aquele medo, pois se a gente derruba o Collor, o que é que vem? Por causa disso, Júlio alertava que tudo devia ser bem apurado. Até que chegou o dia do cheque do Fiat Elba, que a IstoÉ mostrou na capa. Eu peguei aquilo, xerografei e me preparei para ter uma conversa com ele [Júlio Neto]. Então, eu mostrei a matéria, que ele já sabia, porque tinha saído no domingo. Mas ele perguntou que história era aquela. Expliquei: “Doutor Júlio, é o seguinte: agora tem um cheque. Um fantasma do PC Farias pagou o cheque do carro do presidente”. Ele me pediu para mostrar a matéria e eu a deixei lá. Quando deu cinco horas da tarde, o braço direito dele nos editoriais, Oliveiros Ferreira, intelectual, professor da USP e padrasto do William Waack, entra na minha sala e diz: “Vamos pedir o impeachment”. No mesmo dia e na mesma edição, Estadão e Folha pedem impeachment. O Globo, eu não sei, pois não acompanhava.


Mas, no caso específico da BR Distribuidora, acabou dando em “pizza” no final.

É, porque também o impeachment gerou isso. Essa é a minha avaliação. Porque o impeachment é uma coisa tão grave que eclipsou o restante. Um impeachment num país latino-americano, sem tiro nem pedrada, logo em um processo de reabertura política... A situação ficou muito tensa, porque ainda havia o risco de os militares retornarem.


Quando a Polícia Federal tomou a frente das investigações desses escândalos de fraude e corrupção, a imprensa perdeu o campo de atuação e ficou dependendo da liberação dos resultados das investigações para dar continuidade à cobertura. Isso acabou esfriando as matérias. Você acha que esse afastamento da imprensa contribuiu para as polêmicas “pizzas”?

Se depender de nós, jornalistas, não. Mas a intenção é justamente essa: distanciar a imprensa e abafar os casos. Tem uma coisa que eu gostaria de colocar em questão. Quando houve a abertura política, a minha geração estava com 30 e poucos anos. Em 1990, eu tinha quase 40 anos. Quando começou esse processo de reabertura, nós estávamos ocupando postos de chefia nas redações. Eu sei que quando eu digo nós, fica parecendo uma coisa meio mafiosa. Mas é porque quase todo mundo nos jornais já se conhecia. Se nós, jornalistas, fomos treinados, nos adestramos em discutir e ler muito, pelo momento em que o país vivia, de outro lado, isso meio que nos deixou com certos vieses. Sabe a famosa busca pela isenção de opinião nas coberturas jornalísticas? Nós não fomos uma geração de jornalistas isentos. Nós fizemos políticas dentro das redações, fomos trabalhar em jornais políticos. Uns acabaram enveredando mesmo pela política. Eu preferi manter distância em algum momento. Cada um de nós em algum momento de 1968 em diante, teve oportunidade de desvio. Uns foram para a luta armada, outros entraram na resistência civil, outros ficaram nas redações, enfim. Mas quando, finalmente, ocorreu a reabertura política, no momento que nós passamos a ter a oportunidade de exercitar a liberdade, começou a surgir o que chamamos de “jornalismo de dossiê”. As redações passaram a ser manipuladas por grupos de interesses, por lobistas. Começou haver luta entre os grupos políticos e aí sempre vazava um dossiê. Em algum momento, nós percebemos que dossiê não era para publicar e sim para servir de pauta. Essa foi uma fase de, digamos, amadurecimento profissional da nossa geração, em que nós tentamos romper com esse elo entre jornalistas e fontes. Não existe fonte desinteressada. Esse é o verdadeiro pulo do gato. E nós, das grandes redações, nos deixávamos levar pela excitação de publicar qualquer informação escandalosa que as fontes nos transmitiam.


Você já deixou de apurar alguma informação por confiar na fonte?

Não, nunca deixei de apurar as informações que recebia, mas seguramente algumas coisas eu poderia ter feito melhor. Porque não é que a informação seja mentirosa, ela é simplesmente dirigida, é tendenciosa. Faz parte do jogo, não há informação sem interesse por trás.


Você considera ético pagar a fonte por uma informação exclusiva?

Não. Isso não é certo. Inclusive em O Globo, esse tipo de negócio não é permitido pelo nosso código interno.


Como foi que você se tornou parte da equipe do jornal O Globo, em outubro de 2001?

Nem eu sei. Eu já estava com sete anos de direção no Estadão, mais dois anos de direção da sucursal no Rio. Na verdade, eu tive sorte de nunca ter saído do mercado. Mas eu estava no Estadão, e como vocês sabem, direção de um jornal familiar, tem sempre um histórico de brigas internas e chega uma hora que desgasta muito. Então, cheguei a um acordo com eles e decidi sair. Fiz um freelance para a revista Época sobre os 500 anos da descoberta do Brasil. Aí, o Augusto Nunes, meu amigo, era colunista da Época e foi convidado para assumir a direção da revista. Ele resolveu me chamar para substituí-lo em sua antiga coluna, que escrevi por dois anos. Mais tarde, Merval Pereira, do jornal O Globo, me convidou para assinar a editoria de Opinião, pois o jornalista que ocupava o cargo, Luiz Garcia, decidiu se aposentar e deixar o jornal. Eu achei o convite muito maluco e, na hora, disse: “Merval, você tem certeza disso? Porque editoria de Opinião é para quem já está na casa há pelo menos quinze ou vinte anos. Eu estou acabando de chegar”. Mas eu aceitei o desafio.


Há muito conflito entre as opiniões jornalísticas dentro de uma mesma redação?

Não, não tem muito conflito. O jornal O Globo tem a preocupação de debater e compartilhar as decisões entre os diversos segmentos da organização. O Globo na época de Roberto Marinho era uma empresa vertical. Com o crescimento dos filhos – Roberto Irineu, José Roberto e João Roberto –, isso mudou. Foi feita uma preparação muito consciente dos três herdeiros, que resultou em uma mudança de filosofia e de organização da empresa. Então, o grupo se tornou mais horizontal, fazendo com que as decisões sejam compartilhadas entre os executivos, jornalistas, editorialistas e acionistas. O exemplo disso é que toda terça-feira, nós temos uma reunião no Jardim Botânico que reúne os acionistas e o Conselho Editoral das Organizações Globo, com direito a ata e tudo mais. Dividimos as informações e discussões com a cúpula de todas as redações da Globo: TV Globo, GloboNews, Editora Globo, O Globo, Extra, Diário de São Paulo etc.


Quem faz parte do conselho editorial do jornal? E quem decide a escolha dos assuntos, a pauta do jornal O Globo?

Fazem parte do conselho os diretores de redação, eu, por ser editor de Opinião, o Merval Pereira, que é colunista político, mas que também já foi editor geral e, por insistência do João e do José Roberto, permanece no conselho. Quanto à questão de escolha da pauta, quem determina os assuntos a serem abordados é o editor de redação. Eu não tenho nada a ver com essa parte.


Você já cometeu algum tipo de erro ou gafe, como trocar o nome de uma pessoa em uma reportagem?

Várias vezes. E acontece sempre quando você está num bom dia, no dia em que você está se sentindo muito confiante. Olha, tem três profissões que você morre no auge: piloto de avião, o cara sabe tudo, até o dia em que o avião cai; piloto de fórmula um, justamente se acidenta quando está disparado, na frente dos outros; e jornalista. Quando você pensa “esse assunto é comigo mesmo”, escreve a matéria e, batata, sai tudo errado.


Você saberia destacar um furo de reportagem que você já conseguiu?

Um furo foi esse esquema da BR Distribuidora. Foi um trabalho que eu, Suely Caldas, Boechat e mais três repórteres realizamos em conjunto e que nos rendeu o Prêmio Esso no Estadão. Foi um trabalho muito legal.


Você recebeu algum tipo de ameaça ou represália?

Não, aquilo era um esquema de estelionatário. Ali não tinha nenhuma máfia de caça-níquel envolvida. Se comparado com os casos de hoje, eles eram apenas uns caras amadores que queriam faturar uma grana.


Como qualquer empresa, o jornal depende de publicidade para sobreviver. Qual é o posicionamento do jornal em relação aos seus anunciantes? Vocês publicariam uma matéria que contrariasse os interesses dos anunciantes?

Podemos publicar qualquer matéria, tranquilamente. Não estabelecemos nenhum vínculo que nos atrele ao retorno comercial dos nossos anunciantes.


O que você pensa da regulação governamental sobre o produtos de consumo e os anúncios publicitários, como, por exemplo, a proibição da venda de bebida alcoólica nas rodovias federais?

Eu não critico a indústria das bebidas alcoólicas, por exemplo. O que o ministro Temporão está tentando fazer com essa proibição contraria a liberdade individual. O governo está transferindo o mau uso, seja da bebida, da água ou da carne somente para as indústrias, quando também é uma responsabilidade do Estado e do consumidor. É claro que o sujeito não pode beber e dirigir. O que deve ser feito então? Praticar uma fiscalização e punição radicais aos infratores das leis de trânsito. O governo de São Paulo proibiu o consumo de bebida nas rodovias estaduais, mas sabe quantos bafômetros existem para fiscalizar os motoristas? Somente 10. Isso é uma piada. Multar ou fechar estabelecimentos de beira de estrada não resolve nada, porque a bebida vai ser vendida clandestinamente. Só que é muito mais cômodo proibir do que ficar fiscalizando. Essas medidas são absurdas porque você não pode simplesmente destruir um ramo de atividade econômica por conta do uso irresponsável e inconseqüente de seus consumidores. Acho que o governo deve aceitar a auto-regulação do mercado e também do mercado publicitário. Eu falo isso com toda tranqüilidade, porque faço parte do CONAR [Conselho Nacional de Auto-Regulação Publicitária] e vejo o esforço que é feito para segurar os débeis mentais dos publicitários que não têm noção do apelo de algumas campanhas. Então, nós temos que respeitar e seguir as medidas próprias de auto-regulação do mercado publicitário que estão sempre se atualizando. Eu não concordo mesmo com essa coisa intervencionista que o governo vive aplicando e na insistência do Congresso em criar inúmeros projetos de lei para coibir a publicidade. Afinal, nós estamos em uma democracia, e publicidade é liberdade de expressão. Se pensar bem, existe uma série de ações de bons propósitos cujo meio de realizar são autoritários e intervencionistas. Essa questão do autoritarismo está impregnada na nossa vida e nas instituições.


Da mesma forma que tentaram criar um conselho para a imprensa.

Exatamente, isso sai da mesma visão. Também a Ancinav era a criação de um fundo com a grana da TV Globo, do Sistema Brasileiro de Televisão, SBT, das televisões para o esquema do Sr. Gilberto Gil, para dar dinheiros para os amigos e cupinchas. Não precisa de nada disso. Vai lá na TV Globo e apresenta seu projeto. Se você tem competência, eles produzem. Não precisa envolver o governo nisso.


Como os jornais estão lidando com um número cada vez maior de leitores que prefere utilizar a internet para obter as informações?

Os jornais estão se digitalizando. A marca que o jornal carrega também vai se transportar para a internet. Está todo mundo investindo nas redações multimídias. Já existem as editorias online e, agora, estão buscando os profissionais que se destaquem na manipulação de vídeos e imagens, que são partes fundamentais na produção multimídia. Hoje, nós já temos a Globo.com e o portal G1 da TV Globo.


Como você avalia a redação e mercado atuais?

É tudo muito complicado. O último dado que eu vi é o número de jornalistas que as faculdades jogam no mercado por ano. É uma maluquice isso. Agora está pior que vestibular. Mas o que eu vejo é o seguinte: quando a gente entrou numa redação, em meados de 1970, não era tudo tão diferente do que era em 1910. Não se usava mais pena, mas havia linotipo, a sala tinha cheiro de chumbo e o prédio tremia quando começava a imprimir o jornal. Como não tinha computador, nós tínhamos que arquivar as informações em armários de aço. Até em casa eu tinha que ter um armário de arquivos. Hoje em dia, a redação parece até uma agência de banco. Você pode entrar numa redação e trabalhar por cinquenta anos nela, mas se não tiver curiosidade, nunca vai ver uma rotativa. Porque hoje ela está instalada bem distante da redação, na Rio-Petrópolis. Então, aquele lado de indústria foi afastado. Mas, mesmo assim, continua indústria. Só que hoje o trabalho melhorou muito porque os acessos foram muito facilitados. Em suma, o que eu penso é o seguinte: eu critico o cartório da faculdade de comunicação, mas não faço críticas ao ensino superior. Eu vejo que as novas gerações vêm mais preparadas para atuar nas redações e trazem um ferramental básico. Por exemplo, a gente só foi aprender a falar inglês muitos anos depois, por esforço próprio, num estilo meio auto-didata. Agora, hoje em dia, os novos jornalistas têm um enorme desafio pela frente, que é lidar com esse veículo multimídia. Vai se dar melhor quem souber trabalhar conjuntamente com o som, a imagem e o texto.