ARTUR XEXÉU
PERFIL

BIOGRAFIA

Artur Xexéo cursou até o 3º período de engenharia na Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ). Abandonou o curso para estudar jornalismo na Faculdade de Comunicação Hélio Alonso (Facha), pela qual se formou em 1976. Durante a faculdade, teve diversos empregos em agências de turismo e publicidade.

Sua trajetória profissional como jornalista teve início m 1976, quando começou a estagiar no Jornal do Brasil. Foi contratado logo depois de concluir o curso superior, permanecendo no jornal por dois anos. Entre 1978 e 1982, trabalhou como repórter na sucursal carioca da revista Veja.

Em 1982, foi trabalhar na revista Isto É como sub-editor, convidado pelo jornalista Zuenir Ventura, então chefe da sucursal carioca. Em 1985, retornou ao Jornal do Brasil também acompanhando Zuenir Ventura, que chegou a ser editor da revista Domingo e Xexéo o seu subeditor. A revista fazia parte do projeto de reformulação do JB comandado por Marcos de Sá Correa, editor-chefe do jornal.

Logo depois, Artur Xéxeo substituiu Zuenir Ventura como editor da revista Domingo e orientou sua reformulação. Mais tarde, se tornou colunista e editor do Caderno B, do Caderno Cidade e chegou a ser sub-secretário do Jornal do Brasil. Coordenou as coberturas de festivais de música pop, como Rock in Rio, e grandes eventos, como a ECO-92.

Artur Xéxeosaiu do Jornal do Brasil em 2000 devido aos constantes atrasos no pagamento de salários. Foi convidado por O Globo para trabalhar como colunista e, logo depois, também como editor do Segundo Caderno.

ENTREVISTA

Entrevista com Artur Xexéo

Realizada por Carolina de Souza Leal, Carolina Souza de Almeida, Carina David Lopes e Luisa Clements Mannarino
Data: 04/06/2007


Você poderia começar falando um pouco da sua história profissional? São quantos anos de profissão?
Trinta e um anos. Na verdade, eu custei a começar, porque eu não fiz jornalismo de cara, eu fiz engenharia. Eu cursei engenharia na PUC [Pontifícia Universidade Católica], mas larguei no terceiro ano. Não tinha vontade de fazer nada, não sabia o que queria fazer, não tinha nenhuma vocação. Já tinha alguns empregos, trabalhava numa agência de turismo. Era secretário de uma agência de publicidade. Fazia umas coisas assim. Eu ia viver assim, estava bom, não estava complicado, mas achava que eu tinha que pegar um diploma. Tinha uma família careta, que não ia aceitar que eu não tivesse uma formação. Então, fiquei procurando um outro curso para fazer. O mais fácil na época era Comunicação, para mim. O curso não dava muito trabalho, não ia exigir muito de mim. Pensei em fazer Psicologia, mas Psicologia eram cinco anos. Aí, fui fazer Comunicação, que eram só quatro, mas eu não consegui transferência na PUC. Tive que fazer um outro vestibular. E eu tomei essas decisões no início do ano, tanto que eu só poderia fazer vestibular no meio do ano. Aí falei: “então eu vou sair da PUC e vou fazer a faculdade que tem ainda vestibular, que é a Hélio Alonso [Facha]”. Na época, a faculdade estava começando; eu fui da terceira turma da Hélio Alonso. E eu não tinha formação nenhuma para fazer vestibular para a área de humanas. Na época, saía no jornaleiro o Cursinho Abril Vestibular; era um fascículo da Editora Abril, que você estudava para o vestibular em casa. Aí, eu comecei a comprar; a partir do dia que eu resolvi, o vestibular era dali a um mês. Eu comprei uns quatro fascículos para estudar umas coisas que eu nunca tinha estudado, tipo história, sabe. Mas foi um vestibular fácil, não foi complicado. Eu passei e me matriculei à noite para continuar trabalhando. E fui levando. No meio da faculdade, eu tive uma aula que me encantou, que era uma aula de Jornalismo Comparado, dada por um professor chamado Roberto Quintaz, que na época era um profissional de jornalismo. Não sei o que ele faz hoje; ele está vivo, mas não sei o que ele faz. E isso foi uma coisa bacana. Foi no segundo semestre do segundo ano. E, claro, todo mundo que estava ali ou ia fazer jornalismo, ou ia fazer publicidade, ou ia fazer relações públicas. Então, eram coisas que passavam pela minha cabeça. Mas, com aquela disciplina, eu comecei a me interessar e resolvi seguir a carreira. Quando eu me formei, fiz um estágio no Jornal do Brasil. Fui contratado e aí fui embora. Isso foi há trinta anos.

Você fez faculdade de jornalismo numa época que o Brasil vivia a ditadura. Como era?
Eu sofri mais na engenharia. Quando eu fui para a comunicação já estava abrindo um pouco. Figueiredo foi o último presidente da ditadura, mas quando ele foi candidato já havia uma anticandidatura do partido de oposição, que era o Ulisses Guimarães. Então, na Comunicação, eu já tive uma certa abertura. Não tive nada que me prejudicasse no curso universitário por causa da ditadura, até porque a faculdade em que eu estava também não era muito visada. Só tinha esse curso de jornalismo ali. Não era que nem na PUC, que tinha Diretórios Acadêmicos. Lá, o curso de engenharia foi barra pesada. Eu lembro que, na época, tinha os manifestos contra a autoestrada Lagoa-Barra, que não existia na época. E um dos projetos da autoestrada passava pela PUC. Então havia um abaixo-assinado para não deixar a autoestrada passar pela PUC. Isso era visto como uma subversão. E a gente vivia lá. Vladimir Palmeira, que era um dos líderes dos estudantes, fazia discursos na PUC. Tinha essa tradição lá na PUC de antigoverno. Havia espetáculos lá, o Teatro Oficina se apresentava lá. Então, na PUC, tinha um pouco mais de impacto. A ditadura era mais presente lá do que no meu tempo de Comunicação. A Comunicação foi quase no início da abertura já. A gente sofria o que toda a população sofria, mas não especificamente por eu ser um estudante de Comunicação. Não foi mais difícil ou menos difícil estudar Comunicação no final dos anos 1970.

Você começou estagiando no JB, mas também trabalhou na IstoÉ e na Veja. Como foi?
É, eu estagiei no Jornal do Brasil e fui contratado. Esse período todo do meu estágio a minha contratação foram dois anos só. Eu saí de lá e fui para a sucursal da Veja no Rio de Janeiro. Fiquei quatro anos. Depois, eu fui para a sucursal da IstoÉ no Rio de Janeiro, onde eu fiquei três anos. Aí, eu voltei para o JB e fiquei 15 anos lá.

Você ficou como colunista já no Jornal do Brasil?
No JB, eu fui subeditor da Revista de Domingo. Era um projeto de reforma que a revista teve na época. Depois, eu fui editor da Revista de Domingo. Fui editor do Caderno B e fui editor do Caderno Cidade. No final, eu era subsecretário de redação, que era uma função que teve várias caras durante o tempo que eu ocupei o cargo. Nessa época, eu comecei a fazer colunas também. Fiquei lá 15 anos e vim para O Globo, e estou no Globo há sete anos.

Como foi a experiência na Veja e na IstoÉ? Foi na década de 1970 a 1980?
Eu entrei no JB em 1976, saí de lá em 1978. Aí, fui pra Veja. Fiquei na Veja de 1978 a 1982. Fiquei na IstoÉ de 1982 a 1985. Então, a Veja foi fim dos 1970 e início dos 1980, e a IstoÉ foi meio dos 1980.

Qual era sua função?
Na Veja, eu fui repórter. Eu entrei lá era para ser repórter da Geral. Mas sucursal tinha uma coisa boa que era o seguinte: a sede era em São Paulo; então, a cada semana tinha um assunto do Rio que interessava mais à revista, podia ser economia, podia ser política, podia ser cultura. Esse assunto exigia mais gente trabalhando nele, e você acabava fazendo um pouco de tudo. Eu tinha essas obrigações na área em que eu estava. Mas quando precisavam de gente para ajudar na cobertura de política da semana, eu ajudava. Dependia de qual era o assunto do Rio na semana na revista: ou na economia ou na cultura. Então, a Veja foi uma escola fantástica, além do que eu trabalhei com pessoas maravilhosas. Meu chefe era o Zuenir Ventura. Eu era garoto. Tinha dois anos de JB, que é pouco tempo. Na época, eu não achava, mas era pouco. Eu era inexperiente. Então, a Veja me ensinou muita coisa, foi uma superescola. IstoÉ já foi mais um projeto. Zuenir saiu da Veja e foi para a IstoÉ. Ele foi chefe da revista. Ficou um ano lá e me chamou para ser sub dele. E aí eu já fui para ser sub-sei-lá-o-que, subeditor da sucursal da IstoÉ no Rio. Eu era uma espécie de chefe de reportagem. Aí, eu comecei a ter mais experiência na “cozinha”, como eles chamam. Se bem que a “cozinha” de uma sucursal não é igual à de uma sede, que é uma festa de verdade. Mas foi também um superaprendizado. Quando eu fui para ser editor do JB, eu já fui com essa escola da IstoÉ.

Era muito diferente o trabalho na IstoÉ e na Veja?
Não. Acho que não. Eram revistas parecidas. A IstoÉ imitava um pouco a Veja. A Veja tinha uma preocupação maior com o texto, não que fosse um texto melhor ou pior. Era um texto mais formatado. A Veja queria na época que o leitor tivesse a impressão de que a revista inteira tivesse sido escrita por uma pessoa só. Então, isso te dá muita técnica de redação porque esse não é o seu texto natural, não é o seu texto espontâneo. Aliás, no jornalismo nunca é. Mas, na Veja, você tinha uma maneira de fazer aquilo. E, se você quisesse seu texto publicado do jeito que você escrevia, você tinha que se adaptar àquilo. Você tinha que aprender a fazer aquilo que eles queriam. Então, foi uma escola.

Você trabalhou no JB em dois momentos. O que você sentiu de mudança no jornal na segunda fase?
Eu nunca peguei o JB no período auge do jornal. Não sei como é que foi nos anos 1960. Quando eu entrei no JB, em 1976, era uma super-riqueza, um superjornal, uma redação muito grande. As pessoas tinham acabado de se mudar para a Avenida Brasil. Era um prédio novo e muito bonito. E era uma equipe muito grande e talentosa. Mas já havia problemas financeiros. Só que eu acho que – em um período da segunda temporada que eu passei lá – a gente se achava tão bom, tão melhor que todo mundo, que a gente superava isso com muita facilidade. Era engraçado para a gente. Eu saía para a rua para fazer matéria e voltava para a redação de carona no carro da Última Hora. Não tinha carro do JB, entendeu? A gente chegava sempre atrasado nas matérias. Isso era folclore! E a gente ria, porque, no dia seguinte, a nossa matéria era melhor que a de O Globo. Isso era parte da cultura do JB. Mas eu não vou dizer que era uma maravilha. Eu ganhava mal, sabe? Os salários já não eram bons. A época era muito agitada, tinha muito movimento sindical. A gente tinha problema de salário. A gente não tinha o aumento que tinha que ter todo ano, que é o dissídio. Teve um ano lá que o governo não deu o dissídio. Então, fizeram uma assembléia na redação para a gente escolher: ou não tem aumento, ou tem aumento, mas vai ter demissão também. Aí, todo mundo escolheu por não ter aumento. Então, não foi um JB fácil, nem da primeira vez que eu trabalhei lá. Mas ainda havia muitos talentos, grandes jornalistas. Então, era muito estimulante trabalhar lá. Quando eu voltei, já nos anos 1980, foi um período muito bom, porque foi uma época que o JB quis dar uma virada. O editor era o Marcos de Sá Correia. Era uma tentativa também de voltar a fazer um grande jornal. Foi muito estimulante. Aí, eu fiquei durante 15 anos. No final, eu peguei a decadência mesmo. Foi mais difícil: salário atrasado, falta de condição de fazer a matéria e menos investimento em tudo. Foi complicado. Mas foi bem para o final do período em que eu passei lá, já nos anos 1998, 1999, 2000.

Como foi para você essa transição de jornal para revista e de revista de volta para jornal?
Quando trabalhava no JB, antes de ir para a Veja, eu trabalhava na Geral, na Cidade. Então, eu cobria política. Na verdade, eu era mais especializado ainda, eu cobria um setor, que era Justiça. Passei um ano e pouco fazendo só isso. Meu trabalho era ir todo dia para o Fórum pegar notícia e voltar para o jornal. Quando eu fui para a Veja, se abriu um novo mundo. Era muito diferente, não porque um era jornal, e outro era revista. Acho que mais porque um era sede, e o outro era sucursal. Eu aprendi muito na revista por causa disso. E tinha essa coisa do texto também, embora o texto do JB fosse muito formal também, porque tinha que respeitar as regras do lead, do sublead e do corpo da matéria. Eu tive que aprender um outro formalismo na Veja. Acho que não é porque um era jornal, e porque o outro era uma revista. Era porque um era jornal na sede, e o outro era uma revista na sucursal. Depois porque há a especificidade do texto de cada veículo. Foi a primeira vez que eu vi isso: não adiantava manter o meu texto do jeito que era no JB, porque ele não ia ser publicado na Veja desse jeito. Então, eu tinha que aprender como era na Veja.

O ritmo do trabalho era diferente?
Mais ou menos. Era diferente, mas não era mais puxado ou menos puxado. Na Veja, havia dias da semana – que eram os dias de fechamento da revista – que duravam mais. O jornal era todos os dias, mas fechava às 9h da noite e acabou. Ficava do jeito que estava. Na Veja, não. Você mandava a matéria às 9h da noite; às 11h, alguém estava te propondo alguma coisa; à 1h da manhã, você ia para a rua apurar mais alguma coisa que ficou faltando. O fechamento era mais desesperador do que no jornal.

Nos quinze anos em que ficou no JB, você sentiu alguma mudança relacionada à rigidez do jornal?
Sim, mas foi antes. Quando eu voltei para o JB, já não era mais assim. Como eu acho que já não era mais na imprensa inteira. Ficou muito mais flexível. Era tudo fechadíssimo. Foi a grande revolução que o JB fez no jornalismo: o desenho da página com a reforma gráfica. Quando eu entrei lá a primeira vez ainda vigorava aquela reforma. Só era liberado no Caderno B. O Caderno B tinha talentos específicos, cada um escrevia de um jeito. Só que eu acho que essa liberdade que o Caderno B tinha se espalhou pelo jornal inteiro e, quando eu voltei, já era de qualquer jeito em qualquer editoria.

Nesses seus mais de 30 anos de profissão, o que mudou no jornalismo?
Mudou muita coisa. Quando eu comecei a trabalhar, o mercado de trabalho se limitava a jornal e a algumas revistas. Acho que hoje o mercado é muito maior. Não existia rádio all news, que fazia notícias durante 24 horas, como hoje tem. Não existia Internet, que precisa de conteúdo jornalístico à beça. A televisão não era levada a sério, o jornalismo de televisão era muito pequeno. Hoje, cada emissora de TV – e são muitas emissoras – tem o seu departamento de jornalismo. O mercado ampliou demais. E acho que teve toda uma mudança técnica também. Mudaram os ambientes das redações. Eu trabalhava com máquina de escrever, papel carbono com não sei quantas cópias, podendo fumar na redação. Era um ambiente infectado, poluído. Hoje, você tem o computador, a redação é silenciosa e é proibido fumar. Agora, ao mesmo tempo, eu acho que mudou um tipo de coisa também na maneira de apurar. Não é ser romântico, mas agora o repórter vai menos à rua, tem mais facilidade para conseguir a informação pelo telefone ou pelo e-mail. Tem mais barreiras, mas ele não procura superar essas barreiras. Ele pára na assessoria de imprensa, pára no divulgador ou, então, consegue o contato com a fonte através dessa barreira, dessa interrupção. No meu tempo, era mais direto. Você pegava o catálogo telefônico e achava as pessoas. Não acho que o jornalismo piorou por isso, acho que o mundo mudou. Mudou a maneira de a gente apurar também, mudou a maneira da gente chegar às coisas. Acho que o mundo é mais profissional, e a gente também. Então isso eu acho que tirou um pouco a graça da apuração. Tirou a graça de muita coisa também, não foi só do jornalismo.

Mudou alguma coisa no sentimento que você tem pela profissão?
Não. Eu sou muito grato a minha profissão, porque tudo o que eu tenho na vida eu consegui pela profissão. As minhas maiores experiências de vida foram conquistadas através da minha profissão. Eu sou muito feliz e muito satisfeito. Agora, o entusiasmo que você tem no trabalho, eu acho que é inevitável que ele arrefeça com a idade. Então, eu me sinto meio cansado, não me sinto tão disposto, não sou mais tão quixotesco. Eu tenho compromissos fora da redação que eram impensáveis há 20, 25 anos atrás. Minha principal vida era a vida na redação. Hoje, não é. Mas o meu amor pela profissão continua o mesmo. Eu acho o jornalismo uma profissão bonita. Não mudou nada.

Por que você saiu do JB? E como está sendo a sua experiência em O Globo?
Eu cansei do JB. Eu tive problemas pessoais. Na época, a minha mãe estava muito doente, eu estava gastando muito dinheiro com ela, e meu salário não estava vindo em dia. Eu estava começando a ficar maluco. A minha mãe fazia hemodiálise, aí veio o presidente do JB e falou assim: “Eu consigo para a sua mãe uma hemodiálise”. Eu não queria que ele conseguisse nada para mim. Eu queria receber meu salário. Eu estava no auge da minha disposição profissional, estava muito bem conceituado no mercado de trabalho, recebia convites para outros lugares e não ia. E não estava vendo o retorno do JB para a dedicação que eu dava ao jornal. Eu recebia o salário atrasado, era difícil trabalhar. Eu tinha um cartão de crédito que vencia a cada dez dias. Eu ficava sempre mudando os meus gastos para o cartão de crédito seguinte para dar tempo de chegar o meu salário e nunca conseguia, porque o salário vinha cada vez mais atrasado. Eu parei de receber 13° salário. Então, eu pensei: “Eu estou no auge da minha vida profissional e estou no auge da minha confusão financeira. Isso não faz sentido. Eu devia estar ganhando bem, eu devia estar satisfeito”. Eu ganhava bem, só que eu ganhava de uma maneira complicada. E comecei a pensar, vi que estava acabando. Eu fui um dos últimos da minha turma a sair do jornal. Eu falei: “Eu vou acabar me enterrando aqui e vou perder esse bom momento que estou vivendo”. Algumas vezes, eu fui convidado por O Globo, e eu não aceitei. E, aí, chegou o momento que O Globo me convidou, e eu aceitei. Não estava me vendo mais no JB, não estava mais feliz com as promessas que a empresa fazia, não acreditava mais. Minhas conversas não eram boas com a presidência, sabe? Aí, eu resolvi sair. Fui muito calculista na minha saída. E, em O Globo, tem sido muito bom. Desde o primeiro momento, eu fui muito bem recebido. Trabalho muito, mas tem a troca. Eu não tenho do que me queixar. Gosto do trabalho que eu faço, gosto do produto que é feito. Então, estou super bem.

Em algum momento da sua carreira, você sofreu algum tipo de censura?
Quando eu entrei no jornal, não tinha mais censura nas redações. Tinha mais nas rádios. Agora, existia mais ou menos um acordo. Você sabia o que podia ser publicado e o que não podia ser publicado. Mas isso não passava por mim, eu era um repórter estagiário, um repórter recém contratado, isso aí era com os chefes. Talvez eu tenha escrito muitas coisas que não tenham saído, mas por vários motivos, não só porque o chefe não achasse adequado por questões políticas. Na verdade, eu tratava de assuntos que interessavam muito pouco a política do país. Eu falava de acidentes de trânsito, de crimes... E tinha muita coisa minha que não saia porque eram matérias menos importantes. Na Veja, que era uma revista de oposição na época, já não tinha mais censura também. Você tinha aquelas coisas de “vamos dar isso, vamos cobrir a chegada dos exilados”, mas eu não me lembro de nenhum episódio que isso não podia sair. Talvez, na cabeça das pessoas, elas soubessem o que podia sair ou não. Mas eu acho que essa época que eu peguei não era mais assim. Já não tinha mais nem isso. Na Veja, eu cobri a primeira greve que teve no Rio de Janeiro depois da ditadura, que foi uma grave de professores. E a gente cobria tudo, não tinha muito mistério. Não era uma censura muito presente não.

E quanto às pressões da própria empresa? Já aconteceu de você não poder publicar alguma coisa por causa dos interesses da empresa?
Já na Veja, eu comecei a entrar para a cultura, que é uma área menos visada. Então, eu não tenho muitos casos disso também não. Tenho mais na segunda fase do JB do que em O Globo. Você fala mal do secretário de cultura, o secretário de cultura telefona para o presidente do jornal e o presidente fala para você parar um pouco. Isso aconteceu algumas vezes, mas mais por questões não digo de amizade, mas de uma política social, entendeu? Não ficava bem para o dono do JB, um dia, ir numa recepção e encontrar uma pessoa que o jornal estava falando mal. Em O Globo, eu não me lembro disso ter acontecido.

Você destacaria alguma reportagem que tenha marcado a sua carreira ou que tenha algum significado especial para você?
Eu não sou de guardar essas coisas. Eu esqueço as coisas que eu escrevo. Eu encaro o jornalismo muito como algo que se faz hoje e amanhã acabou. Eu não acho que é uma obra que fique. Então, eu não guardo nem na minha cabeça. Na primeira vez em que eu trabalhei no Jornal do Brasil, como eu cobria Justiça, eu peguei um caso que foi muito famoso na época, que foi o Caso Cláudia. Foi um assassinato que teve no Rio de uma garota de classe média, Cláudia Lessin Rodrigues, que era irmã de uma atriz famosa, Márcia Rodrigues. E ela foi assassinada. Morreu numa festa regada à cocaína. Então, era algo que envolvia a alta sociedade, envolvia gente conhecida. Foi quando a cidade descobriu que se cheirava cocaína nas festas do Rio de Janeiro. Esse caso teve muita repercussão. Um dos acusados do assassinato era um cabeleireiro famoso e o outro era filho de um industrial famoso, dono de um escritório de distribuição de relógios no Brasil, muito rico. Era uma gente muito rica. Então, foi um caso de muita repercussão. Esse caso foi investigado pela polícia e, um dia, chegou à Justiça. Quando chegou à Justiça, eu tive que cobrir. Para você ter uma ideia, eu cobri esse assunto durante um ano. Todo dia eu fazia pelo menos uma matéria sobre esse caso. Tinha dia em que eu fazia duas, três. A última matéria que eu escrevi no JB, antes de ir para Veja, foi “Um ano de Caso Cláudia”. Em um ano, eu fiz pelo menos 365 matérias sobre o Caso Cláudia, porque tinha fim de semana que eu não trabalhava, mas tinha dia que eu fazia mais de uma. Então, eu garanto que 365 matérias eu escrevi. Foi um caso que me marcou muito, eu acompanhei muito. Eu tinha o processo na minha gaveta, que eu folheava. A Veja tem um prêmio, Prêmio Abril de Jornalismo, que todas as revistas concorrem. É igual ao Oscar, indicam algumas matérias, e eu fui indicado duas vezes. Um foi pela cobertura de outro caso: o julgamento do Doc Street [pelo assassinato de Ângela Diniz]. Eu não lembro qual foi a outra matéria. Não ganhei o prêmio de jornalismo, mas a matéria deve ser boa, porque foi indicada para o prêmio. Eu me orgulho da reforma da Revista de Domingo, isso em 1985. Era uma revista totalmente acabada, a gente conseguiu dar uma virada, e a revista virou super “na moda”, na época. Eu gosto de coordenar grandes coberturas também. Eu coordenei, como editor do Caderno B, a cobertura do segundo Rock in Rio, que foi uma coisa gigantesca. Eu coordenei toda a cobertura do JB na ECO 92. Eu era editor do caderno da Rio 92. Foram seis meses de trabalho. Eu tenho o maior orgulho disso. Eu cobri quatro Copas do Mundo. Eu tenho orgulho disso também.

Na sua opinião, qual é o papel do jornalismo hoje? Mudou de 1970 para cá?
Acho que o papel da gente é socializar a informação e isso não muda. Você tem o veículo que expande a notícia que você apurou. É isso que você faz. O jornalismo é uma maneira da sociedade estar informada sobre tudo, e você é um veículo para que isso aconteça. Eu acho que é isso sempre. Acho que você tem melhores momentos da carreira; do jornalismo em si, piores momentos, mas essa função não muda, é a mesma. Era assim quando eu comecei, já era assim antes e vai ser sempre assim qualquer que seja o veículo.

Atualmente, você é editor do Segundo Caderno e colunista de O Globo. Qual é a diferença entre essas duas funções?
É completamente diferente. Quando você é colunista, você senta numa cadeira, em frente a um computador e escreve uma crônica, um texto pessoal, alguma coisa que você está sentindo, que não tem nada a ver com ninguém, é com você.

Como você concilia essas duas funções?
É horrível de conciliar por vários motivos. Às vezes, eu tenho um assunto, ele é bom para coluna, mas eu vou deixar de cuidar do Segundo Caderno? Não é melhor mandar alguém apurar isso, fazer uma matéria. Então, é muito difícil. Fora isso, há o problema do tempo. Se você for se dedicar a escrever legal mesmo na coluna, você vai estar tirando o tempo que você dedicaria a edição do Segundo Caderno. E vice-versa: se você se dedicar demais ao Segundo Caderno, prejudica a coluna. Eu acho que eu me dedico mais ao Segundo Caderno do que à coluna, o que me deixa frustrado.

Tem algum nome do jornalismo que você admire ou no qual se inspire?
Pôxa, eu não só admiro, como sou grato, aprendi tudo com ele, que é o Zuenir Ventura. Eu trabalhei muito com ele. Eu fui para Veja para trabalhar com ele. Ele foi para IstoÉ e me levou. Depois, ele foi chamado para ir para o JB e, aí, ele me chamou. E, lá no JB, foi engraçado porque ele ficou comigo na revista, depois ele foi para o Caderno B. Um dia ele largou a Caderno B porque tinha que escrever um livro, e eu fui para vaga dele. Então, de 1978 a 1987, eu trabalhei muito próximo a ele. Então, durante uns 10 anos, a gente trabalhou muito junto e eu chupei dele tudo que eu podia chupar. E, como profissional, ele é irrepreensível. Sempre botou no trabalho o humanismo na frente de qualquer interesse pessoal. Isso foi muito bom também, porque eu botei o pé no chão. Para você não se achar o dono da verdade, não se achar o melhor do mundo, que é uma coisa que você está arriscado a sentir nesta profissão. Então, não só admiro muito ele, como devo muito a ele.