ANA ARRUDA CALLADO
BIOGRAFIA

Ana Arruda Callado nasceu no ano de 1937, na cidade de Recife (Pernambuco). Aos oito anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro, acompanhada da família composta por seu pai, um engenheiro civil, sua mãe, dona de casa e seus catorze irmãos, onze mulheres e três homens. Seu pai sempre incentivou os filhos a ingressarem no ensino superior, até mesmo as mulheres, algo pouco comum na época. Isso foi muito importante para que Ana Arruda Callado optasse pela faculdade de Jornalismo, ainda que essa carreira, especificamente, não agradasse tanto a seu pai.

Em 1955, Ana ingressou no curso de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde se formou em 1957. Ainda estudante, Ana teve uma breve passagem pela Tribuna da Imprensa, jornal em que fez um curso de redação com o jornalista Carlos Lacerda. Logo que se formou, em 1958, começou a trabalhar no Jornal do Brasil, de onde saiu em 1962, por ter aderido a uma greve geral de jornalistas que terminou com uma demissão em massa desses profissionais.

Apesar da saída repentina em 1962, Ana teve uma trajetória muito bem-sucedida no Jornal do Brasil. Poucos meses depois de ter entrado para o jornal, em 1958, fez uma série sobre reforma agrária, intitulada “Reforma Agrária: todo mundo fala, mas ninguém faz”, que lhe rendeu o prêmio Herbert Moses. Em março do ano seguinte, com uma série de reportagens sobre a infância abandonada, Ana ganhou a Menção Honrosa do Prêmio Esso, junto a profissionais de grande nome como Hélio Silva (Tribuna da Imprensa), David Nasser (O Cruzeiro), Mario Morel (O Mundo Ilustrado), Bernardino Carvalho (O Globo).

Mesmo com o acordo entre os editores dos jornais do Rio de Janeiro para não contratarem os grevistas demitidos, Ana foi chamada por Hélio Fernandes para trabalhar na Tribuna da Imprensa. Ali escreveu para diversas editorias, como Economia e Internacional. Em 1966, Horácio de Carvalho comprou o jornal Diário Carioca e chamou Prudente de Morais para dirigir. Este, por sua vez, convidou Zuenir Ventura para a chefia de redação e os dois chamaram Ana. Foi no Diário Carioca que a jornalista tornou-se a primeira mulher a ser chefe de reportagem no Brasil.

No ano de 1967, Ana Arruda fez parte da equipe que fundou um jornal da imprensa alternativa. O Sol, que nasceu com a proposta de ser um jornal-escola, era um encarte diário dentro do Jornal dos Sports, mas em pouco tempo passou a ser publicado separadamente. Apesar de sua vida curta – começou em setembro de 1967 e acabou em janeiro de 1968 – teve grande repercussão política e foi de muita importância na vida de Ana.

Após o recrudescimento da ditadura em 1968, a jornalista passou a ter dificuldades para exercer a profissão, fato que acabou tornando seu engajamento político ainda maior, tanto que ela entrou para o grupo Resistência Armada Nacional (RAN) e acabou presa em 1973. Mas, antes de ser presa, chegou a trabalhar na Editora Delta, onde coordenou a Enciclopédia Delta Universal. Depois, foi para o jornal O Globo, onde fazia resenhas. Ela ainda participou da criação da revista Pensar Brasil, que só teve quatro números publicados. Além disso, também teve uma breve passagem pela televisão, logo após o fim d’O Sol. Ela foi chamada por Fernando Barbosa Lima para atuar no Jornal da Vanguarda, a TV Rio. Ali acumulava as funções de redatora e de secretariar o jornal, checando a presença de todos os colunistas.

Quando saiu da prisão, Ana foi chamada por Amélia Lacombe para ser professora do curso de Jornalismo na universidade que fundara: o Centro Unificado Profissional (CUP). Contudo, o modelo de universidade seguido pelo CUP (salários altos para os professores, equipamentos de alta tecnologia, turmas pequenas), não conseguiu se sustentar financeiramente e a universidade foi vendida, o que causou a demissão de vários professores.

Após esse episódio, a jornalista foi convidada para lecionar na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), onde permaneceu por dois anos até se tornar professora concursada da Universidade Federal Fluminense (UFF). Por conta de pressões do seu marido, que considerava um grande sacrifício ir para Niterói todas as noites, Ana fez, em 1995, concurso para a Escola de Comunicação da UFRJ – e passou, e ali ficou por catorze anos.

Em 1997, perdeu o marido, o escritor de literatura e teatro, também jornalista, Antônio Callado, com quem foi casada por 20 anos. Após a aposentadoria na UFRJ, continuou a dar algumas aulas na PUC-Rio. Manteve sua proximidade com o universo dos jornalistas, tendo exercido cargo de conselheira da Associação Brasileira de Imprensa. Em 2013, foi instituída presidente de honra da Comissão da Verdade do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.


ENTREVISTA

Entrevista com Ana Arruda Callado

Realizada por: Andressa de Oliveira Spata

Data: 04/ 11/ 2008


Fale seu nome completo e origem.

Meu nome de registro completo é Ana Araújo de Arruda Albuquerque. Nasci em Pernambuco, Recife, no dia 19 de maio de 1937.


Quais os nomes e atividades dos pais?

Meu pai era o engenheiro José Arruda de Albuquerque, uma pessoa muito especial, porque trabalhou organizando cooperativas, durante toda a vida inteira. E minha mãe, Eloísa Araújo, tinha se formado como professora primária, tocava piano e etc, mas depois ficou em casa apenas, porque exagerou. Teve quinze filhos. Eu tenho catorze irmãos.


Qual é a sua formação?

Gosto muito de contar isso. Eu não fiz primário, porque a família era muito grande. Fiquei alguns anos na fazenda do meu pai, em Araruama, quando ele se mudou para o Rio, em 1945, finalzinho da guerra. E então os filhos menores foram para a fazenda. Como eu era pequena naquele tempo, fomos para a fazenda. Estudei primeiro com uma professora particular de Pernambuco, que o meu pai contratou. Eu gosto de me gabar, porque foi a professora do Paulo Freire, Eunice de Vasconcelos. Essa professora preparou minhas irmãs, Maria da Graça e Zita, para o exame de admissão. Então eu fiquei um ano e meio estudando com ela. Depois ela voltou para Recife e eu fiquei à toa na vida, na fazenda. Minha mãe, uma vez por semana, me chamava e fazia um ditado... Mas, em contrapartida, eu lia desesperadamente. Até que cheguei à idade de fazer o exame de admissão, o que era um vestibularzinho naquele tempo. Fiz o meu ginásio num colégio de freira, o Colégio Santo Amaro, mas depois tive a sorte de ir para o Colégio de Aplicação da UFRJ, que era um colégio modelo. Esse colégio ainda é bom, mas naquele tempo era “o fino”. Tive professores extraordinários. Eram os melhores professores da Faculdade Nacional de filosofia que davam aula no Colégio de Aplicação (CAP). De lá, eu fui fazer vestibular na Faculdade Nacional de Filosofia, para jornalismo. Fiz o curso de Jornalismo, não me pergunte o porquê. Na minha família não tinha nenhum jornalista, mas todo mundo estudava muito, fazia curso superior. Tanto que o meu pai ficou muito triste quando eu disse que ia fazer jornalismo. Ele disse: “Minha filhinha, jornalista não dá pra nada”. Ai que horror! Depois ele gostou que eu fosse jornalista. Mas, enfim, eu fui fazer Jornalismo, em um tempo em que o curso era um curso de humanidades. Era formidável. A gente tinha pouquíssima técnica, mas eu ainda acho que era melhor do que agora. Tínhamos as disciplinas de “História da Arte”, “Teoria do Estado”, coisas muito boas e com professores bons também. Quando ainda estava na faculdade, fiz um rápido curso na Tribuna da Imprensa. A razão era que minha irmã tinha uma amiga jornalista que era daTribuna, a Umbelina Sena Canguçu. Nunca esqueci este nome, que é extraordinário. E ela disse: “Carmem, sua irmã está fazendo jornalismo? O Carlos Lacerda vai voltar a assumir a Tribuna”. [Porque o Lacerda, quando se cansava da política, dizia: “Agora eu vou cuidar do meu jornal”. Voltava para o jornal, ficava uns dois ou três meses e saía novamente.] E continuava: “O Lacerda agora assumiu o jornal e vai ministrar um curso para o pessoal da redação e eu posso pedir a ele para a sua irmã fazer”. E ele consentiu. Foi um curso rapidíssimo, mas que teve uma grande importância, realmente. Primeiro pela importância do Carlos Lacerda, que era, naquele momento, o maior jornalista do Brasil. Foram muito marcantes as aulas. Então, eu tive contato com a redação, com o diretor do jornal e com os jornalistas. E isso foi muito bom para a faculdade, embora eu tivesse como professor também o Danton Jobim. Mas o Danton era meio desligado, desinteressado, não foi um bom professor. Eu usei muito os livros do Danton quando professora, mas como meu professor ele não foi bom.


E quanto ao inicio da profissão de jornalismo, quando e como você começou a trabalhar com jornalismo?

Eu acabei o curso e disse: “Bom, e agora? Tenho que trabalhar como jornalista”. Tive uma experiência interessante também: eu era da Ação Católica, quando estava cursando o ginásio científico. E a Ação Católica tinha um jornalzinho chamado Roteiro da Juventude. E quem dirigia esse jornal era o Cícero Sandroni, que eu conheci também na Ação Católica. Um dia ele disse: “Estou precisando de ajuda”, e eu me ofereci. Embora fosse um jornalzinho pequeno, ele era rodado no jornal Última Hora. Então, eu muito metida, isso antes ainda de entrar na faculdade, pois eu entrei com 17 anos na faculdade, ia ao Última Hora para fazer revisão do jornal. Então eu comecei realmente a me entrosar no meio jornalístico. Como falei do Cícero Sandroni e me lembrei no roteiro, ele foi a pessoa que me indicou ao Jornal do Brasil. Foi assim. Eu encontrei com ele na rua e ele disse: “E você, Ana, está trabalhando em jornal?”, e eu disse: “Não, Cícero, eu não conheço ninguém de jornal”. E ele disse “Olha, vá ao Jornal do Brasil. Eu estive lá e o Jornal do Brasil está começando uma reforma sensacional e o Wilson Figueiredo é o chefe de reportagem. Você diz que fui eu que mandei você falar com ele”. E assim fui falar com o Wilson e comecei o estágio.


Como foi a sua trajetória no Jornal do Brasil? Em que atuava?

Bom, no Jornal do Brasil, eu comecei como estagiária, mas em três meses assinaram a minha carteira. Mas fiquei na reportagem geral. Eu era de família grande, muito caseira, da Ação Católica e muito fechada. E até hoje o Wilson, que se tornou um grande amigo e que foi meu primeiro chefe de reportagem, brinca: “Ana, quando você chegou, com aquela cara de filha de Maria, com aquele vestidão, dizendo que queria trabalhar, eu fiquei espantado”. Eu sempre fui muito tímida e na minha redação só trabalhavam homens; e eu andava com o rosto virado para o chão. Então parti para a reportagem geral e fazia de tudo: até movimento de pescadores, quando houve quebra-quebra. Aliás, o pessoal perguntava, por ser mulher, se foi difícil para mim. No Jornal do Brasil não foi, porque o pessoal me protegia muito, inclusive os fotógrafos. E a gente sempre saía com um fotógrafo. Os colegas também me tratavam muito bem. Então eu fiz reportagem geral e brigava um pouco para ter foco em uma editoria. Mas no Jornal do Brasiltambémtive uma experiência excelente de atuar na reportagem de profundidade, reportagem de arquivo, que eu não digo que inventei, claro, mas estava um pouco em desuso naquela época, na década de 1950. E eu fiz grandes reportagens de arquivo que me deram muito prazer.


Como você lidou com as mudanças provocadas pela reforma que o jornal passava na época?

A reforma no Jornal do Brasil foi muito importante. Aliás, fala-se muito dela, porque foi uma reforma gráfica feita pelo Amílcar de Castro, que tem uma formação gráfica lindíssima e é um grande escritor, escultor. Mas também é uma reforma editorial, uma reforma na maneira de escrever. O Jornal do Brasil buscou a questão do lead, que não foi o Jornal do Brasil que introduziu [foi o Diário Carioca]. Mas pegou todas aquelas maneiras americanas de se fazer jornal, introduziu e aperfeiçoou. Isso é importante. Eu diria que em 1959/ 1960, o Jornal do Brasil era o jornal mais bem escrito do país, sem qualquer sombra de dúvidas. Tanto que, quando viajava, nas muitas viagens a serviço para fazer reportagens, em cada lugar que eu chegava o pessoal perguntava: “Ana, você é do Jornal do Brasil? Maravilha, me conte como é isso, como é aquilo”. Quer dizer, era um jornal que tinha uma influência e um prestígio no Brasil inteiro para os jornalistas. Era importante para os jornalistas.


Como surgiu a ideia de escrever uma matéria a respeito da reforma agrária no Brasil? Como foi a experiência?

Então, dessas reportagens, houve duas que foram realmente muito importantes, porque me renderam prêmios. Com pouco tempo no jornal, já ganhei prêmios. Um foi sobre a Reforma Agrária. Outro dia eu estava dizendo: “Meu Deus, eu podia escrever igualzinho hoje!” Essa reportagem se chamava: “Reforma Agrária, todo mundo fala e ninguém faz”. Então, com as experiências de reforma agrária e, ao mesmo tempo, os projetos, eu lembro que eu me enfiei na Câmara dos Deputados, que ainda era aqui no Rio, e fui ver dezenas de projetos de reforma agrária que tinham sido apresentados no decorrer da história do Brasil e todos rejeitados ou engavetados. Essa da Reforma Agrária me rendeu o prêmio Herbert Moses, do Ministério da Agricultura e, claro, eu fiquei muito feliz.


E o que a levou a escrever a matéria sobre a infância abandonada? Como foi a experiência?

E depois eu fiz uma matéria sobre a infância abandonada que teve, inclusive, como consequência uma campanha do Jornal do Brasil pela adoção. A repórter encarregada dessa campanha foi a Sílvia Donato. Eu fiquei como uma espécie de ajudante dela, porque a Sílvia era antiga no Jornal, fazia polícia, e coisa e tal. A Sílvia Donato, inclusive, ganhou o grande Prêmio Esso com essa reportagem. Com a matéria da infância abandonada, eu ganhei uma menção honrosa do Prêmio Esso. Outro dia houve uma polêmica curiosa, porque a Faculdade Hélio Alonso (FACHA) me homenageou como a primeira mulher a ganhar um Prêmio Esso. Eu levei o diploma, Prêmio Esso de Reportagem, com o nome Ana Araújo de Arruda Albuquerque. Só virei Callado quando me casei, muito tempo depois. E na véspera, uma menina da FACHA me ligou e disse: “Olha Ana, nós estamos muito constrangidos porque o jornalista encarregado do Prêmio Esso, o Olavo Nunes, diz que você não ganhou o Prêmio Esso. A primeira foi Sílvia Donato”. E eu fiquei chateada, porque parecia que eu estava roubando, digamos assim, o prêmio. Eu disse: “Olha, a Sílvia Donato, quando ganhou, foi um amor, me ofereceu o prêmio lá no banquete a todo mundo, dizendo que eu tinha ajudado, e realmente ajudei muito ela. Mas eu ganhei “um” Prêmio Esso; não foi “o” Prêmio Esso. Foi uma menção honrosa, o que já era um espanto naquela época de poucos prêmios. Depois a Esso foi aumentando o número de prêmios com prêmios regionais, enfim”. Mas essa reportagem da infância abandonada rendeu não só esse mini-Prêmio Esso (a menção honrosa) como detonou a campanha formidável no Jornal do Brasil. Mesmo assim nós tínhamos 400 crianças passíveis de adoção, mas no fim só se fizeram 80 adoções... Isso revela como é complicadíssima a adoção no Brasil. Mas foi uma bela campanha e a série de reportagens da Sílvia Donato que deu a ela o grande Prêmio Esso. Então foi um tempo maravilhoso, porque realmente eu me sentia muito bem no jornal, porque eu fiz muitas coisas lá, como a matéria da reforma agrária. Meu pai tinha trabalhado a vida inteira na diretoria do Serviço de Agronomia Rural do Ministério. Ele acompanhava as cooperativas, se interessava muito por reforma agrária e chegou a trabalhar na Comissão de Reforma Agrária. Ele era amigo do Cleófas, também pernambucano. E por coincidência, quer dizer, por coincidência não... eu ainda não conhecia Antonio Callado, mas Callado tinha sido a vida inteira um homem preocupado com a reforma agrária. Ele tinha trabalhado na Comissão de Reforma Agrária como assessor e escreveu sobre a temática, depois fez uma campanha realmente grande pela reforma agrária. Escreveu, inclusive, um livro, adorado que se chama “Entre o Deus e a Vasilha – A Reforma Agrária que não aconteceu”, que nunca houve, alguma coisa assim. Então, eu abordei esses dois problemas e muitos outros. Eu fiz também uma série de reportagens sobre o assunto. Eu estive na Bahia enquanto estava fazendo essa da reforma agrária e vi algumas aldeias indígenas miseráveis. Então fiz matéria sobre isso também. Fiz sobre educação, sobre analfabetismo. Eu me lembro do título da primeira da série era “No Brasil o analfabetismo cresce com o desenvolvimento”. À medida que a população aumentava, o analfabetismo aumentava. Porque o Brasil é cansativo, a vida inteira os mesmos problemas, as mesmas coisas, enfim. Mas de qualquer maneira, eu tratava de uma forma global, de uma forma assim, bem aberta esses problemas, e isso foi uma experiência muito boa.


Você esperava que essa matéria também fosse lhe render um prêmio, dessa vez uma menção honrosa do Prêmio Esso? O que ele representou na sua carreira?

Esses prêmios representaram muito na minha carreira, em termos de visibilidade. A série de reportagens saiu aos domingos, em página inteira, com chamada na primeira página. Isso foi em 1959, quando eu tinha somente um ano e meio de formada. Então é claro que significou muito. Tem até um episódio engraçado, quando o Herbert Moses me deu o prêmio, coisa e tal. Lá na festa do Esso, me deu o diploma e um beijo e é claro que saiu em todos os jornais. A foto saiu, e eu era a única mulher recebendo o Prêmio. Era muito jovem ainda e o Herbert Moses me tascando um beijo na face. Existe um dicionário chamado Dicionário das Mulheres Ilustres e Famosas do Brasil, que uma senhora formidável, já falecida, Adalzira Bittencourt, iniciou e nunca acabou. Chegou na letra C só. Mas nesse dicionário tem o verbete Ana Arruda porque ela viu esse recorte e foi muito engraçado. Ela disse assim: “Ana Arruda, receber um beijo do Herbert Moses... Você é a única pessoa a entrar em um dicionário porque recebeu um beijo”. Mas o Herbert Moses era o presidente eterno da ABI [Associação Brasileira de Imprensa], era uma figuraça nacional. E foi engraçado que antes do Prêmio Esso, eu tinha ganhado justo o Prêmio Herbert Moses, que era da ABI. Ele tinha sido presidente da ABI a vida inteira e eu ganhei esse prêmio, pelo Ministério da Agricultura e ABI. Foi entregue na ABI.


Por que decidiu participar da greve de 1962, que provocou a sua demissão do JB?

Eu respondo com outra pergunta. Por que acabou esse tempo maravilhoso de que eu lembro até hoje com tanto prazer? Eu entrei no Jornal do Brasilem 1958, dia primeiro de abril de 1958, nunca me esqueci, e em 1962 eu fui demitida. Por quê? Porque houve uma greve dos jornalistas e eu aderi. Com o trabalho em jornal, com as viagens, conhecendo o mundo, evidentemente eu comecei a participar politicamente e a frequentar o sindicato e tudo mais. Então, quando houve a greve, não passou pela minha cabeça que eu não ia aderir. Inclusive, no Jornal do Brasil, digamos que das 40 pessoas, três furaram a greve. Foi maciço. O nosso chefe de reportagem na ocasião que, se eu não me engano, era o Jaime Negreiros, estava lá, com a gente, no sindicato. Todo mundo se reunia no sindicato, e o pessoal que estava em greve. Em 1962, já estávamos em uma época de grande movimentação política no Brasil. O presidente era João Goulart, já tinha havido a renúncia do Jânio [Quadros], já tinha havido aquilo tudo, e era impossível não participar. Era impossível, pelo menos, para alguma pessoa que tivesse qualquer consciência. As pessoas que furaram, (eu sei até de algumas, mas não vou dizer o nome), são pessoas que estavam desesperadas pelo emprego ou desesperadas por permanecerem no Jornal do Brasil, pela importância que tinha. Eu me lembro, inclusive, de um deles que um dia falou assim para mim: “Ah, Ana, é muito bom o que vocês estão fazendo, bacana. Mas você tem pai e mãe em casa”. E realmente, eu estava arriscando... Mas é o tal negócio: eu não estava arriscando sobrevivência, mas estava arriscando uma carreira que estava me dando um prazer enorme. Foi muito duro. Essa demissão foi muito dura para mim. Sabe, a primeira vez que eu senti realmente, mas eu sabia que podia acontecer isso. E depois teve uma coisa boa, é que eu, com quatro anos de jornal, fui demitida com gente como o Sérgio Cabral, que também estava no Jornal do Brasil durante um tempo (ele entrou junto comigo), Ferreira Gullar. Éramos treze do JB. Só no JB fomos treze. Ao todo, fomos 80 jornalistas do Rio inteiro demitidos. E os donos dos jornais fizeram um pacto de nenhum jornal contratar quem fizesse a greve, porque o presidente do sindicato era o Chagas Freitas, o presidente do sindicato dos patrões, dos donos de jornal. E ele botou o advogado dele e teve essa ideia genial. Genial para ele. Acabar com a gente, para nunca mais ter greve mesmo. Nós conseguimos parar, por dois dias não saíram os jornais no Rio de Janeiro. Isso é um feito! Até hoje tenho certo orgulho disso.


Como foi a sua entrada na Tribuna da Imprensa? Em que atuava?

Pelo Hélio Fernandes, que é uma pessoa incrível, e a pessoa mais difícil de você definir que conheço. Incrível. Incrível é uma boa definição. O Hélio disse: “Eu não entro nessa não”. A Tribuna era um jornal pequeno, nunca teve força econômica, sempre foi um jornal pequeno, de poucos leitores. Então ele disse: “Não, eu não entro nessa história não”. Aí como ele sabia que eu tinha sido demitida, me chamou. Eu não conhecia o Hélio... mas fui pra Tribuna fazer economia. E aí foi bom, porque eu não sabia nada de economia. Mas repórter é repórter: eu imediatamente arranjei umas fontes ótimas e me dei muito bem.


Como foi a sua trajetória na Tribuna da Imprensa?

Na Tribuna da Imprensa foi outro trabalho interessante e eu me dei muito bem. Eu fiz, durante muito tempo, séries. Fiz algumas sobre a indústria da aviação civil e coisa e tal, o problema dos aviões com má conservação, o ponto de vista dos pilotos, enfim... Que também foi divertido, porque Fernando, meu irmão mais velho, tinha sido piloto da PanAir, tinha feito uma greve na empresa. Então você vê que a gente termina envolvido pelas coisas do passado, da família, etc. E eu fiquei na Tribuna. Mas a Tribuna não era um jornal que satisfazia, por ser muito pequeno. Tinha um lado ótimo, porque existia em plena Ditadura Militar. Eu trabalhei lá até depois de 1964. O jornal, que era do Hélio (que era lacerdista), tinha participado ativamente da conspiração para o Golpe de 1964. Esse jornal tinha sido do Carlos Lacerda e o Hélio tinha assumido. Lá fazíamos oposição, principalmente a Roberto Campos. Eu fiz uma série de matérias contra o Roberto Campos, assinando Mauro “qualquer coisa”, eu era Mauro. Eu não me lembro o sobrenome... Mauro Duarte, sei lá. Porque o Hélio tinha essa coisa maravilhosa. Como era muito perigoso atacar o governo, ele simplesmente botava a gente pra usar pseudônimo e, todas as vezes que ele era preso, interrogado e perguntavam: “Mas quem é fulano de tal?”, ele respondia: “Tudo o que sai do meu jornal é responsabilidade minha”. Nunca deu o nome de um repórter. Incrível, né? Então é uma pessoa para a gente ficar muito grata.


O que a levou sair da Tribuna da Imprensa para o Diário Carioca?

O Diário Carioca foi um convite fantástico, porque tive experiência de ser chefe de reportagem eu não ia recusar nunca. E depois porque o Diário Carioca, que tinha sido o grande jornal modelo do Rio de Janeiro, estava em completa decadência. Mas seu dono, Horácio de Carvalho, marido da Dona Lili de Carvalho, hoje Lili Marinho, queria exatamente ressuscitar o prestígio antigo do Diário Carioca, que foi, nos anos 1940, um grande jornal. E aí chamou o Doutor Prudente de Morais Neto [Eu não consigo falar no Prudente de Morais sem falar “Doutor Prudente”. É que a gente só chamava ele de “Doutor Prudente”, uma pessoa maravilhosa]. E ele chamou Zuenir Ventura para chefiar a redação. Eu já havia tido contato com Zuenir naTribuna. Já era amiga dele de um grupo de amigos que se encontrava. E Zuenir e Mary eram muito amigos meus. Enfim, a Mary tinha sido minha colega de faculdade, hoje Mary Ventura, da mesma turma da Faculdade Nacional de Filosofia, fez jornalismo também comigo. E então Zuenir me chamou.


E como foi a experiência no Diário Carioca?

Foi incrível. Formidável eu de repente ser chefe de reportagem do Diário Carioca. A própria pauta do jornal era pequena. Eu praticamente fazia e distribuía a pauta. O jornal tinha uns estagiários ótimos que eu os orientava. Assim me firmei, já num outro plano. O Diário Carioca explorou muito isso com marketing. Eu até brincava que me chamaram não pela minha competência, mas pela propaganda que tinha uma mulher na chefia de reportagem.


Por que você saiu do Diário Carioca?

O que é bom acaba rápido, né? O Diário Carioca fez aquela tentativa com coisas muito boas e nós fizemos certo sucesso. Mas o Horácio de Carvalho não persistiu, ele não estava com tanta vontade de ter o jornal, começou a ver que não se interessava e vendeu o jornal. E o jornal foi assumido por um jornalista, o Mauritônio Meira. O Horácio era um homem de negócios, dono de mina de ouro e etc. E aí o Mauritônio assumiu e me chamou. Eu não saí do Diário Carioca, porque o Zuenir saiu, logo após o Horácio sair. O Horácio me disse: “Ana, fica, fica. O Mauritônio disse que quer que você fique”. E eu fiquei. O Mauritônio Meira então foi conversar comigo e apresentou uns planos completamente absurdos, que depois eu vi que não eram verdadeiros. Dizia que iria transformar o jornal num jornal para a mulher, porque a mulher tinha que gostar de ler jornal e então que era ótimo eu ficar lá porque era um jornal para a mulher, que sempre o ponto de vista da mulher que ia ser olhado na reportagem. Eu achei aquilo muito estranho porque, para mim, mulher tem que ler jornal como o homem; porque notícia é notícia e mulher tem que se interessar pelas notícias. Ele disse: “Não, por exemplo, a gente vai entrevistar o governador, mas a gente dá mais destaque à entrevista com a mulher dele”. Eu achei aquilo muito esquisito, mas não tinha outro plano na vida, então eu disse: “tudo bem”. Mas em um dia, em que estou em minha mesa (essa história eu tenho que contar para você saber o que acontece dentro de uma redação), estou trabalhando como chefe de reportagem e os repórteres ali por perto. De repente toca o telefone e um rapaz jornalista, cujo nome eu esqueci completamente, mas que eu conhecia somente de nome e não pessoalmente, mas sabia que era interessante, me liga, dizendo assim: “Ana, você não me conhece. Eu sou fulano e eu estou um pouco sem graça de falar com você, mas quando me disseram que você era chefe de reportagem aí, eu fiquei estarrecido, porque o Mauritônio me convidou para a chefia de reportagem no Diário Carioca”. E eu disse: “Sei, convidou quando?” “Há uma semana já. E eu fiquei de ir aí e coisa tal”. Eu disse: “Tudo bem, venha”. E ele: “E eu fiquei exatamente de assumir hoje ou amanhã”. Eu disse: “Venha hoje, venha hoje”. “Mas e você?” “Eu arrumo as gavetas e passo a mesa para você”. Foi assim que eu saí do Diário Carioca. Não digo que saí satisfeita, mas pelo menos saí com a cara limpa e o nariz pra cima. E fiz exatamente isso: arrumei todas as gavetas e quando ele chegou e eu disse: “Olha, o novo chefe de vocês” e fui pra casa. E o Mauritônio Meira jamais me explicou. Até encontrou comigo algumas vezes e disse: “Oi, Ana, como vai?” Mas nunca disse nada. E também o jornal durou pouco. Ele não conseguiu o dinheiro. Porque o jornal exige muito dinheiro. Então foi assim que eu saí do Diário Carioca.


Quais as principais diferenças que esses três jornais – O JB, a Tribuna da Imprensa e o Diário Carioca – tinham entre si? Como cada um deles contribuiu para sua formação enquanto jornalista?

As principais diferenças entre esses três jornais: JB, Tribuna e Diário Carioca... Eu acho que o bom foi que eles eram muito diferentes. O JB era o jornal que queria ser bem escrito, queria prestar muita atenção à parte cultural: tinha o suplemento dominical, a rádio estava no auge também, porque o Reinaldo Jardim tinha reformado a rádio, tinha criado o Caderno B... Enfim, era um jornal “chique, elegante”, a estética da Bossa Nova. Tinha uma amiga, até hoje muito amiga, que estava fazendo Filosofia e ia fazer uma dissertação de mestrado sobre a estética da Bossa Nova, pegando como objetos de análise o Jornal do Brasil, a Bossa Nova, o Juscelino e Brasília, como uma época do Brasil. Muito interessante a ideia dela, mas nunca escreveu. Depois se falou muito nisso, após alguns anos, mas ela foi a primeira que pensou. Então era isso o JB. JB era Bossa Nova, Brasília, Oscar Niemeyer. Já a Tribuna era aquela loucura. A Tribuna foi fundada por Carlos Lacerda e nunca deixou de ser Carlos Lacerda. Embora depois tenha sido do Hélio Fernandes, voltou a ser do Hélio, e por um tempo tenha sido do Jornal do Brasil até. Foi também do Mário Faustino, poeta maravilhoso, porém o pior chefe de redação que já houve. Ele quase afundou a Tribuna. Então, a Tribuna é um jornal franco-atirador, um jornal maluco que não tem compromisso com a cobertura das coisas, é um jornal de campanha, que é interessante também. E no Diário Carioca foi rápida a experiência, mas foi maravilhosa, porque eu treinei um pouco esse lado de coordenar. Porque a chefia de reportagem é uma coisa complicada, você tem que coordenar os temas e as pessoas. Tem que acompanhar o que cada repórter está fazendo. Eu atualmente presido o Conselho Estadual de Cultura e um dia um amigo perguntou: “Ana, como é isso?”. E eu disse: “Olha, eu sou presidente, mas eu tenho pelo menos dez conselheiros que têm muito mais inteligência, brilho intelectual do que eu. Mas, acho que sou a pessoa certa para ser presidente, porque sou a pessoa que sabe mandar e administrar egos”. E isso a gente aprende numa chefia de reportagem de jornal. Eu acho então que cada trabalho que a gente faz, é evidente que contribui muito pra formação pessoal, pra tudo.


Entre 1964 e 1968, já havia algum tipo de intervenção da Ditadura Militar nas redações? Como isso acontecia? E como isso refletiu no seu trabalho?

Acontecia muito. Por exemplo, Hélio Fernandes, como eu disse, foi chamado duas ou três vezes para depor, falando de matérias que saíam. Agora, o que não havia na Tribuna, e até 1968, em quase em nenhum jornal (só aqueles perseguidos mesmo) era a presença do censor. Então, sem a presença do censor ali lendo matéria e dizendo isso não pode e isso pode, a coisa fica mais fácil, a gente até esquece um pouco. Mas é claro que havia uma autocensura muito grande. Os jornais se seguravam muito, sabiam que não podiam abusar. Isso era aquela censura sutil. Mas os jornais se comportavam. Só quando eles começaram a perder muito dinheiro é que eles se aborreceram com a censura e voltaram.


O que representou para você ser a primeira mulher no Brasil a ser chefe de reportagem?

A experiência então no Diário Carioca foi essa. A primeira mulher chefe no Brasil a ser chefe de reportagem. Eu tenho medo desse título, não sei o porquê. Pode ser que lá em Pindamonhangaba, uma mulher tenha sido chefe de reportagem, a gente não sabe. É porque o Rio, durante muito tempo foi o centro do Brasil, e eu acho que ainda é. Então, as pessoas falam que no Brasil eu fui a primeira. Provavelmente tenha sido. No Rio de Janeiro, certamente. Repare: havia mulheres donas de jornal, isso é que é interessante. Por quê? Porque a mulher podia ser empresária. O já no dia-a-dia a chefia de reportagem era um trabalho meio que de sargento. Esse é o tipo de chefe de reportagem que conheci, mas graças a Deus, não os que eu tive. Tive pessoas adoráveis, como chefes de reportagem, como o Wilson Figueiredo, o Jaime Negreiros, o Araújo Neto (que chefe maravilhoso!). Mas também experimentei aquele tipo sargentão: “Tem que trazer matéria”, de palavrão, essas coisas.


Como foi essa experiência? Você sofreu algum tipo de preconceito, tanto dentro da redação, como fora dela?

Então, foi importante e um choque para algumas pessoas mais velhas do Diário Carioca. O fato de eu ser mulher e uma mulher bem educada, que se comportava, que, apesar de não parecer mais “filha de Maria”, mas ainda ter um comportamento de “moça de família”, como se dizia naquele tempo, era espantoso para as pessoas. É claro que eu sofri preconceito, mas havia também mais um espanto, um espanto bom. Eu me lembro sempre de umas histórias. Um dia estava no restaurante que a gente frequentava, ali perto do Diário Carioca, que a gente chamava de SB9, por ser na Rua São Bento, número 9. O Diário Carioca ficava ali quase na Praça Mauá. E aí eu estava com um grupo, não me lembro de exatamente quem, almoçando, quando entra Naum Sirotsky, grande jornalista, até hoje em ação, lá em Israel. Naum Sirotsky entra com umas três ou quatro pessoas, me avista e vai andando em direção, assim, reto para mim, chega perto e grita, grita mesmo no restaurante, eu já morrendo de vergonha: “Ana Arruda! Levante-se!” Aí eu fiquei vermelha, ele já estava pertinho de mim, e eu disse: “Que isso, Naum!” Claro que não levantei. E ele disse: “Ana, eu quero que você se levante para eu lhe dar um beijo, porque eu nunca beijei uma chefe de reportagem”. Então havia mais isso. Um espanto e um carinho mesmo, pelas pessoas.


Como você percebe a atuação da mulher no jornalismo atual? O que acha que mudou e o que permanece da época em que você estava nas redações?

O que eu acho é que hoje a redação está cheinha de mulher. No meu tempo não tinha quase mulher. Eu posso citar Sílvia Donato, Maria Inês, Clecy Ribeiro, eu não me lembro de outras colegas. Era aquele “bando” de homem. E tinham dias e dias em que não havia nenhuma outra mulher na redação, a não ser eu. Porque o pessoal da editoria internacional, como a Clecy Ribeiro, por exemplo, chegava mais tarde. Hoje, ao contrário, tem muito mais mulher nas redações do que homem. É cheio de mulher! As escolas de jornalismo estão cheias de mulheres. Mas, repara. As chefias ainda são masculinas. São raríssimas. Existem algumas, mas você conta nos dedos. É um espanto. Então isso é que me chateia. Quando eu ganhei o prêmio da Intercom, que é a Sociedade de Pesquisa em Jornalismo, e disseram “Ana, que maravilha, a primeira mulher a ganhar o prêmio de maturidade acadêmica da Intercom”. Eu disse: “Gente, isso me chateia. Primeira mulher... Quantas mulheres já deveriam ter ganhado isso?” Quer dizer, ainda não há essa cultura. Há uma explicação para isso, que é a seguinte: não é o jornalismo que possui preconceito, de jeito nenhum. É a sociedade. Uma mulher chefe de reportagem ou chefe de redação tem que dar um tempo que uma dona de casa não pode ter. E eu só casei só depois da minha carreira concluída, quer dizer, concluída... Não se conclui, eu ainda estou trabalhando, mas quer dizer, eu já tinha feito em jornalismo tudo o que eu queria na vida quando casei. Porque se você casa, se você tem filho pequeno, realmente é quase impossível ser uma chefe de reportagem. Você não tem hora para sair, você não tem hora para entrar, você é chamada de noite... Eu vejo mais é um preconceito da sociedade que ainda obriga a mulher a ser “do lar” e fazer a chamada dupla jornada. Mas acho, de qualquer maneira, que as mulheres ainda não alcançaram esse cargo nos jornais. As pessoas dizem: “Tem as colunistas”. Claro! Eu adoro a Miriam Leitão, a Dora Kramer, coisa e tal, essas comentaristas de televisão muito boas, mas ainda é um mundo de masculina decisão. Na decisão, mudou muito, felizmente tem muita mulher, mas ainda é um mundo dirigido pelos homens.


E como surgiu a ideia de se criar o jornal Sol?

Ah, eu adoro falar dO Sol, mas já falei tanto... O Sol foi uma ideia do Reinaldo Jardim. Em um filme em conversa com ele, eu questiono por que as escolas de jornalismo têm aqueles jornaizinhos de mentira que os alunos ficam fazendo e que não são vendidos... Por que não é ao contrário? Por que não existe um jornal que tenha uma escola? Porque aí vai ser um jornal de verdade com uma escola. Ele apresentou essa ideia ao Jornal dos Sports, onde ele já tinha feito duas coisas formidáveis: o “Cultura JS”, que era um suplemento cultural maravilhoso, do qual eu participei, porque Reinaldo era muito amigo meu. E nós fazíamos... Era delicioso! Éramos Reinaldo Jardim, Ferreira Gullar, Vera Pedrosa, filha do Mário Pedrosa, que é embaixadora (até se aposentou agora, a Vera). Então, nós fazíamos isso na casa do Reinaldo, a pauta, essas coisas. Isso era o “Cultura JS”. Então, a direção do Jornal dos Sports já estava querendo fazer coisas diferentes, porque o jornal estava numa crise muito grande, porque todos os jornais começaram a fazer editorias de esportes. Aí o Jornal dos Sports ficou um tempo sem função. Então eles toparam. Ah, e tinha o “Cartum JS” também, que o Reinaldo Jardim fez, um dos suplementos só de cartum, uma maravilha. E me chamou logo e chamou o Zuenir. Zuenir seria o chefe de redação e eu seria chefe de reportagem local. E começamos a conversar e a armar núcleos, organizar o jornal.


Como era o jornal, em si: seu conteúdo, seus colaboradores, sua linguagem?

O jornal tinha que ser algo diferente. “Vamos acabar com o negócio do lead!”, assim como o Jornal do Brasil levou o lead ao máximo, cristalizou. Dizíamos: “Que bobagem! Hoje a notícia se vê na televisão. Vamos fazer um jornal bem escrito”. Aí Reinaldo teve a ideia de história em quadrinhos. “Vamos nos inspirar nas histórias em quadrinhos, nos títulos, nas chamadas, coisa e tal”. E discutimos, e trabalhamos à beça, ficamos uma vez um final de semana inteiro no sítio de Reinaldo, quando Zuenir, inclusive, fez o modelo da redação de matéria de um quarto de página, matéria de duas colunas, matéria de uma coluna, como é que deveria ser título, e etc. Fizemos um planejamento fantástico. Fizemos um curso para os garotos selecionados, os “nossos meninos”, como a gente chamava, que eram estudantes, não só de jornalismo, mas de qualquer curso universitário. Então, funcionava dessa maneira. Quer dizer, o jornal era um jornal normal, tinha pauta. Todos os acontecimentos da cidade: tínhamos cobertura da Assembleia Legislativa, da polícia, tínhamos dez editorias, todas dirigidas por um jornalista profissional, já de experiência, e gente como Marta Alencar, na editoria de cultura, Carlos Heitor Cony, na de polícia, que fez um trabalho extraordinário.


Como era a redação do jornal?

Então, na redação do jornal o único problema é que era tão livre, a gente discutia tudo, era tudo tão bagunçado, digamos, tão “anos 60”, que havia dificuldade exatamente de entregar na oficina na hora certa. Esse era o meu trabalho. Eu era uma espécie de “xerife” do jornal. Eu digo: “Ai, meu Deus, eu sempre com esses papeis”. Mas tinha que ser. Tanto que inventaram a musiquinha que até no filme cantam, a Marta Alencar inventou naquele tempo, junto com o Caetano Velos. Então, quando entrava na sala deles do setor de cultura, que era o mais bagunceiro do mundo, eles cantavam: “Deus nos acuda, dá dá, chegou a Ana Arruda, dá dá”, porque eu ia cobrar o fechamento do jornal. Mas era brilhante, era brilhante. Porque as pessoas trabalhavam com amor e entusiasmo. Todos os estagiários ou alunos recebiam como estagiários. Porque tem muita gente que diz: “Ah, vai fazer um jornal com exploração do trabalho”. Não era verdade. Recebiam melhor do que estagiários de outros jornais. E também tinham esse luxo de ter, não só editores profissionais, como acompanhamento de duas pessoas que a gente chamava de “conselheiros”. Essa foi uma grande invenção dO Sol, das pessoas que ficavam na redação à disposição dos repórteres. Era o Otto Maria Carpeaux, que era um sábio. “Meu Deus do céu, o Brasil já teve sábios, agora não tem mais não”. Otto Maria Carpeaux, que dizia assim: “Ana, quais são as matérias, como é que é?”. Aí eu mostrava a pauta para ele, e ele dizia assim: “Quem é que está fazendo isso aqui?”. Eu dizia: “Fulano”. E ele ia lá e conversava com o repórter, dava toda a informação que o repórter precisaria para aquilo. E o outro era o Sérgio Lemos, que morreu pouco tempo depois, um sociólogo interessantíssimo, que tinha uma cabeça muito aberta e que também discutia os problemas de comportamento, as matérias de comportamento, e tudo mais. Para você ter ideia do que era O Sol, tinha uma editoria de prospectiva. Então eram só matérias, não era de ciência, era mais do que de ciência. Era uma ideia de futuro, quer dizer, em geral eram cientistas que davam entrevistas. Mas eram as prospectivas, eles faziam prospectivas.


Na sua opinião, o que O Sol representou para o jornalismo brasileiro e para a sociedade?

Então, eu acho que o jornal representou uma revolução, no sentido de não imaginarmos o quão O Sol era querido pelas pessoas. Por exemplo, Ziraldo foi assistir primeiro número do jornal rodar, estava lá à beira da máquina. A Maria Betânia fez um show para nós e vivia lá também. A verdade é que ela adorava o Reinaldo. E, Caetano Veloso, que depois até pedimos licença para ele, cedeu a música dele “Alegria Alegria” como tema do filme e nós usamos também como tema quando o jornal saiu, que era encartado pelo Jornal dos Sports. E, pelo sucesso, um mês depois começou a ser vendido separadamente. Aí houve uma campanha publicitária com “O Sol na banca de revista” e a música do Caetano, porque ele ia muito lá. Então era um jornal que as pessoas adoravam. Eu me lembro do Figueiredo, que também ia lá. O pessoal ficava encantado. E logo que o jornal ia sair, Zuenir participou muito dessa fase de elaboração, mas disse: “Não, esse negócio não vai durar, eu vou cuidar da minha vida”. E saiu, quando era chefe de redação.


Como foi o fim do jornal? O que isso significou para você?

E foi realmente um tempo maravilhoso, mas durou pouco o jornal. Eu tenho um bloqueio na minha cabeça. Eu nunca sei exatamente o quanto durou. Mas acho que foram sete meses, menos de um ano. Mas O Sol era muito maravilhoso, e como eu disse, as coisas acabam, as coisas muito boas acabam.


Como a Ditadura Militar, sobretudo após o AI-5, afetou sua vida profissional?

Foi com o AI-5 que começou o aperto. Porque repare, a gente saiu de 1966 para 1967. Não foi de repente que houve o AI-5. As coisas começaram a endurecer e a direção do jornal começou a ser muito cobrada, porque a gente “pintava e bordava”. Era “Che Guevara pode não ter morrido”, era “FMI é o FIM”. A gente realmente era um jornal que, vamos dizer assim, espetava um pouco, provocava o regime militar. E todo mundo lá dentro da redação era contra o regime, alguns até já em organizações mais pesadas. Tanto que muita gente que foi d’O Sol entrou na luta armada depois. Então a gente sabia que a coisa não podia durar. E a própria direção do jornal foi aguentando. E o primeiro sintoma foi substituir e impor mais um editor de economia. Aí nós tínhamos raiva, porque nós achávamos que era um interventor. Depois nós descobrimos que era uma ótima pessoa. Então, depois, aí já foi diretamente. A região militar, ou sei lá como é que se chamava, o comando militar exigiu a saída do [Otto Maria] Carpeaux. Quando o Carpeaux saiu, nós nos reunimos, e dissemos: “Bom, vamos fechar o jornal. Sem o Carpeaux a gente não fica”. Mas aí o Carpeaux disse: “Vocês estão sendo infantis. É uma das poucas vozes de resistência esse jornal, não pode acabar. Eu vou embora para casa. Quando vocês quiserem, vocês me telefonam, falam comigo. Pelo amor de Deus, fiquem”. Aí ficamos, mas sentimos que aquilo era o fim, o começo do fim. Tanto que o grupo já se preparou para lançar o Poder Jovem. Formamos uma cooperativa chamada Poder Jovem e no dia que a direção disse: “Não dá mais”, eles estavam dentro do juízo. Na hora eu fiquei furiosa. Mas hoje eu acho que a empresa podia ir à falência se continuasse com O Sol. O Sol não tinha anúncio, ele tinha um sucesso que se chama, tem uma expressão francesa que é assim “succès de estime”, quer dizer, na classe intelectual, jornalística e artística todo mundo adorava O Sol. Mas ele não vendia tanto que o justificasse. Porque o Pasquim, que eu acho que foi muito inspirado nO Sol. Só que era só de humor, não fazia coberturas de acontecimentos. O Pasquim vendeu muito, daí ter se segurado. O Sol não. O Sol vendia. Se tivesse uns anunciozinhos, dava para segurar. Mas estava dando prejuízo para a empresa. Então era para acabar mesmo. E no dia que resolveram que era o último, a gente então se reuniu, fez essa cooperativa, mas o nosso Poder Jovem só saiu em quatro números, era semanal. Não tinha como: vendemos na praia, fizemos o diabo, tinha capas lindas. A primeira capa foi do Ziraldo, que nos apoiou muito. A segunda foi da Marta Alencar, a outra acho que foi do Wagner, um dos desenhistas que o Ziraldo arrumou para a gente.


Diante da impossibilidade de se fazer um jornalismo engajado politicamente, em que áreas você começou a atuar?

Quando O Sol acabou, foi um sinal de que as coisas iam acabar. Que as coisas iam ficar muito ruins. E a partir daí, houve um período na minha vida em que jornal não existia e eu fui trabalhar com outras coisas. Eu fui para a Editora Delta, fazer enciclopédia. Enfim, dei um tempo na minha vida de jornal.


Como foi a sua experiência na televisão?

Teve ainda a TV Rio. Um dos fãs d’O Sol era o Fernando Barbosa Lima, meu queridíssimo amigo, que faleceu há pouco tempo. E o Fernando, que foi um grande homem de televisão, realmente abrilhantou a televisão brasileira, me chamou para trabalhar com ele. Primeiro, conseguiu a TV Continental, ele a arrendou. Aliás, arrendou não. Ele se encarregou de ficar fazendo funcionar, porque estava fechando a TV Continental. Então, oPoder Jovem se reunia e tinha sede lá. E a gente fazia uns programas completamente loucos. Programas, inclusive, de notícias fantásticas, que o pessoal hoje o pessoal diz assim: “Ah, porque imagina... é um programa assim, assim”. Eu digo: “Ih, fizemos tanto isso na TV Continental”. Era de apresentar conversas, como por exemplo, quando eu chegava para o repórter e perguntava: “Fulano, o que está acontecendo? Você foi para rua fazer o que? E o que houve?”. Aí o repórter começava a falar. Depois vinha outro, dava uns palpites. Eram uns programas muito interessantes. Mas a TV não era para durar, a gente sabia. O Fernando então foi fazer o “Jornal de Vanguarda” na TV Rio e me chamou para ser a secretária do jornal. Eu fazia e juntava os textos. Porque o jornal do Fernando era quase uma revista, como se diz hoje. Então havia colunistas e eles falavam e tal. E as notícias e filmes. Mas era uma miséria. Aqueles filmes velhos. Teve um dia que disseram: “Pelo amor de Deus, troca [Quando falavam do Vietnã] aquele filme dos aviões que são os mesmos, todo mundo já viu. Todos os dias são os mesmos aviões”. Porque eram os filmes que a gente ia repetindo. Eu vivia lá no meio dos filmes, catando filmes diferentes. Mas foi também por pouco tempo Porém foi uma experiência muito boa. Inclusive quem me ajudou muito nessa época foi o Cid Moreira, que era um jovem locutor, mas já muito bom. E eu dava a ele os textos. E ele chegava cedo, era todo profissional, lia e dizia: “Ah, Ana, muda essa palavra. Essa daqui eu vou engasgar”. Então eu comecei a aprender na prática redação em TV e com muita ajuda do Cid Moreira. Mas aí veio 1968. Veio o AI-5 mesmo, aquele horror. Os caras querendo prender o Newton Carlos; o Newton fugindo pelo telhado. O próprio Fernando barrando o Reinaldo Jardim, que fazia um quadro que chamava “Barrabás”, em que ele fazia um poemeto, assim de circunstância para cada acontecimento a mais do dia. Mas era tudo um pouco contra. E o Fernando apavorado. Lá do Forte de Copacabana, o comandante do Forte já tinha falado com ele duas vezes: “Pára com isso, olha aí esse barbudo que diz coisas inconvenientes”. Aí quando chegou o AI-5, acabou o jornal, acabou tudo. A minha experiência em televisão foi acabada pelo AI-5.


Como era o jornalismo feito pela televisão na época? Quais as diferenças em relação ao impresso?

E o jornalismo de televisão ainda era muito rude, porque não havia o videoteipe, não se cortava, era completamente diferente. Eu diria que era um rádio com os filminhos, com as imagens. Era um jornalismo de rádio, não havia jornalismo de televisão em 1968, como existe hoje, de jeito nenhum. Bom, eu retornei ao jornal impresso, quando o Alberto Dines me convidou para fazer o “Caderno Infantil” do JB, que foi uma experiência muito boa também. Você vê que eu já fiz quase tudo de jornal. Fiz o caderno infantil, mas também, porque eu queria que fosse o fino do caderno, a gente tenta sempre fazer o melhor, aí complica. Então não tinha história em quadrinhos. Não que eu seja contra histórias em quadrinhos, mas esses “comics” comprados como todos os cadernos têm, eu sou contra. Aí a gente tentou colocar quadrinho nacional, o Miguel Paiva começou lá no caderno infantil fazendo “Capitão Eco contra o Doutor Polu”. E era muito engraçado, o Capitão Eco era o herói que tinha um capacete com uma flor na cabeça. Era lindinho esse personagem que o Miguel criou lá para o caderno infantil. E nós reuníamos as crianças uma vez por mês e as crianças escreviam. Outro que começou nO Sol, e depois foi para o caderno infantil, que tinha logotipo do Ziraldo, foi o Marcos Magalhães, que depois fez muito desenho animado, ganhou muitos prêmios. E o Marcos Magalhães fazia desenhinhos para a gente. Era menino, 12, 13 anos, ia lá conversar com a gente... Havia uma sessão de cartas que a Norma Cury fazia. A Norma se correspondia com os meninos. E tinha reportagens. O Rogério Freitas Mourão outro dia estava me lembrando: “Ana, você lembra quando eu escrevia para o ‘Caderno I’?”, e eu disse: “Mentira, até você?”. Escrevia sobre Astronomia... Enfim, era um caderno que respeitava a criança. Mas aí começou a guerra. A publicidade começou a implicar que não conseguia anúncio, porque o caderno era muito sério, porque o caderno era não sei o que, enquanto a gente exibia mil cartas dizendo maravilhas, a publicidade implicava. Aí eu ainda cedi, coloquei o “Peanuts” e o “Hagar, o horrível”, que eu adorava as duas. Eu digo: “Bom, então coloca pelo menos, de qualidade”. Mesmo assim, eles continuaram a implicar. Aí em dezembro, (não me lembro de qual ano, mas eu sei que foi em dezembro, porque tinha uma festa de Natal lá) anunciaram que iam fechar o “Caderno Infantil”, mas que eu não estava excluída, que eu poderia escolher o que quisesse para fazer. Aí eu, burramente, disse: “Ah, eu quero voltar para a reportagem, eu estou com saudades da reportagem”. Sem saber, sem me dar conta, de que você não pode voltar no tempo. Olha, foi um tédio só. Eu olhava para a pauta e dizia: “Jesus, eu já fiz tudo isso aqui”. Porque a gente pensa que jornal é novidade, não é não. Só é novidade quando cai um avião ou tem um incêndio. Até os incêndios, se você olhar, são coberturas iguais. Então, foi um tédio só e eu fiquei pouco tempo. Saí do Jornal do Brasil, e aí, fiquei só fazendo umas resenhas para O Globo um tempo, fazendo algumas coisas esparsas. Mas foi o fim do meu trabalho mesmo em jornal, com o “Caderno Infantil” e essa breve volta para a reportagem.


Como foi seu ingresso na vida acadêmica?

Após a saída da reportagem eu virei professora. Eu tinha sido presa, em 1973, levei 52 dias no DOI-CODI, ainda quando estava no “Caderno Infantil”, mas voltei e coisa e tal. O pessoal do Jornal do Brasil foi legal comigo. Mas nesse tempo eu estava também na Editora Delta, fazendo as enciclopédias em capítulos, fiz inclusive depois uma grande enciclopédia para a Delta. E Amélia Lacombe tinha convidado Armando Strozenberg, meu velho amigo, querido amigo, que tinha trabalhado comigo no Diário Carioca e no Jornal do Brasil. Amélia chamou o Armando para organizar o Departamento de Jornalismo de uma faculdade que ela estava fundando em Jacarepaguá e me chamou. E eu fui à casa dela e disse: “Amélia, eu não acho conveniente não. [Isso era 1974, 1975] Eu fui presa, ainda tem um processo correndo, eu não tenho passaporte, meu passaporte está negado, eu acho que não é uma boa para você, não”. E ela disse: “Ana, eu não estou perguntando se é bom para mim, eu estou lhe convidando para dar aula na minha faculdade. Então eu quero saber se é bom para você”. É uma maravilha você ouvir isso. Eu disse: “Ah, eu quero. Eu nunca fui professora, mas acho que Jornalismo dá para ensinar”. E entrei no CUP – Centro Unificado Profissional –, um dos nomes mais estúpidos do mundo, para uma faculdade maravilhosa. Olha, o que Amélia Lacombe fez foi uma maravilha. Ela chamou Luís Costa Lima, o Armando organizou a coisa muito bem, depois o Luis Gleiser foi organizar o laboratório. Enfim, era “o fino do fino”. Uma faculdade exemplar. Outra vez, um exemplo de que nenhum negócio se segura por causa da questão do dinheiro. Amélia foi à falência e teve que vender a faculdade, que aí virou a Faculdade da Cidade, ou UniverCidade? É universidade com “C”.


Como foi sua trajetória acadêmica? Por quanto tempo atuou como professora?

Era perfeita, foi uma outra experiência. Porque eu acho que a vida só vale a pena se experimentarmos, embora me considere jornalista até hoje. Acho que jornalismo é a minha profissão, mas acho que você não pode ficar fazendo a mesma coisa, tem que mudar. E foi muito boa essa mudança para o Centro Unificado Profissional. Mas, tudo o que é bom acaba. Aí chegou o Serpa, da Cesgranrio, até disse: “Ah, Ana, eu até queria que você ficasse”, mas eu disse: “Só se todo mundo ficar, e coisa e tal”. E aí eles demitiram todo mundo, fizeram um processo, foi uma coisa terrível. Mas aí a PUC me chamou. A PUC soube do fim, porque CUP era o contrário da PUC, porque Amélia tinha saído zangada da PUC. A PUC me chamou, e aí eu amei, realmente, ter ido para a PUC. O Miguel, chefe do departamento, uma pessoa incrível, e todos os professores de lá, o ambiente... E eu fiquei na PUC, muito feliz da vida, mas depois eu saí da PUC para UFF, por causa do concurso que fiz. Abriu um concurso para professor da UFF. E aí eu disse: “Bom, um belo desafio. Vou fazer um concurso para professor. Vou ver se virei professora mesmo”. E esse concurso foi muito curioso, porque o tema da aula foi “Pauta”. Você falar 50 minutos sobre pauta, com a seguinte pauta olhando para a minha cara, porque você dá aula para a banca no concurso: Muniz Sodré, o Emanuel Carneiro Leão, da UFRJ, que era de lá também, e o Nilson Lage. Os três olhando para minha cara. E eu quase disse: “Não dou!” Mas, tomei coragem e fui. Passei. Era uma vaga, eu ganhei a vaga e fiquei dando aula na UFF. Mas aí, numa altura dessas, eu tinha casado, e meu marido ficava injuriado. Olha, Callado nunca se meteu, nunca me chateou, nunca atrapalhou minha carreira. Aliás, eu dizia: “Eu só caso quando encontrar um homem mais feminista do que eu”. Encontrei e casei. Ele era realmente perfeito nisso. Mas, a UFF começou a chatear ele. Ele dizia: “Ana, não tem sentido alguém com essa sua vida, com a carreira que você já teve, sair de noite, pegar uma barca (porque eu não dirigia), para ir para Niterói dar aula. Tem algum sentido isso?”. Mas, fui indo... Aí, abriu concurso na [Universidade] Federal do Rio de Janeiro, pertinho de casa. Aí eu pedi demissão na UFF. Isso é engraçado, porque você não sabe como é difícil pedir demissão de um cargo público, quando você é concursada. O pessoal não queria nem me receber: “Professora, aconteceu alguma coisa com a senhora aqui? Houve algum problema? A senhora fala com o reitor”. Eu disse: “Não, meu bem. É que eu fiz concurso para a Federal do Rio de Janeiro”. “Mas a senhora pode tirar uma licença, depois acumular”. E eu disse: “Mas eu não quero!”. “Ah, mas a senhora ganhou por concurso esse cargo, como é que vai abandonar?”. Foi um desespero! Até o reitor ligou para a minha casa, aborrecido. Foi um desespero sair da UFF. Porque eu acho que nunca ninguém tinha pedido demissão de um cargo público e por concurso. Eu passei então na UFRJ, optei. E fiquei 14 anos na UFRJ. Aí realmente, eu fui vice-diretora, com o Muniz Sodré como diretor. Aí sim, tinha um professor maravilhoso, Mário Camarinha, que disse: “Olha, Ana, você tem que ter pós-graduação”. E eu disse: “Professor, na minha idade, com tudo o que eu já gramei na vida”. Eu assisti a umas aulas, era uma coisa, eu achava aquilo infantil. E ele dizia: “Mas Ana, você tem que ter, você é a vice-diretora, você não vai ascender na carreira”. E eu disse: “Tá bom, vou fazer mestrado”. Aí fiz o mestrado com certa má vontade, o que foi bobagem, porque sempre tem, ou pelo menos eu tive uns dois ou três professores que me abriram muito o horizonte. Tudo novo é bom. E tinha muita gente também já antiga, no mestrado. Fiz mestrado. Fiz uma dissertação sobre os editoriais da Abolição, o que foi quando, pelo menos datei o início do editorial da imprensa brasileira com as campanhas da Abolição e da República, mais particularmente da Abolição. Na realidade, não era sobre os editoriais. O meu primeiro objetivo era fixar quando o editorial começou, assim, um espaço separado, e quais as características dele. Mas na realidade foi um discurso da Abolição, o discurso na rua, dos comícios, no parlamento, os discursos dos jornais. Foi outra coisa muito boa. Aprendi história do Brasil, muita coisa para fazer isso. Porque a gente pensa que sabe. Quando começa a estudar, aí vê que nunca sabe. E, acabado o mestrado, fiz aquela coisa natural de ir para o doutorado. No doutorado foi mais difícil, porque eu tive menos professores que realmente valessem a pena, que me ensinassem coisas. Não porque eles eram piores, mas porque, enfim... É complicado dizer isso. Mas, fiz o doutorado. E quando estava para acabar, tinha que fazer a tese. E a Heloísa Buarque de Holanda era minha orientadora de tese. E aí eu fiz o meu primeiro trabalho, que a gente ia concluindo os cursos e ia fazendo os trabalhos que serviriam para a tese. Eu já tinha apresentado o meu projeto de tese, que ela aprovou. Aí eu mostrei meu trabalho, eu apresentei um trabalho de final de disciplina pra uma professora, aliás, ótima, Meira. Uma professora ótima, que dava coisas sobre memória. Memória social. Aprendi muito com ela. Mas ela era acadêmica, e para mim, é uma raça... ô, meu Deus... a Academia... A Academia nesse sentido, a linguagem acadêmica. Insuportável. Para mim é insuportável. E olha que eu dei aula quase 20 anos em universidades e cheguei à doutora. Bom, mesmo assim eu não aguento a linguagem. Aí eu entrego, e ela me devolve o trabalho assim, meio sem graça: “Ana, olha, eu lhe dei A [porque podia dar A, B, C, D]”. Eu disse: “Bom, se deu A, deu A”. Mas aí ela escreveu assim: “onde estão os autores que nós estudamos? Onde está Le Goff? Onde está...?” Eu fiquei estarrecida, olhando para aquela mulher inteligente, tinha me dado aulas formidáveis. Eu disse: “Mas, Meira, eu não escreveria o que eu escrevi...” “Por que está tão bem escrito, está tão bonito o seu trabalho, mas cadê os nossos autores?” “Você não percebeu que isso aí é fruto das suas aulas, do que eu estudei no Le Goff?”, “Ah, mas você não citou nenhum deles”. Aí nesse dia, eu disse: “Ah, não. Vou acabar isso.” Aí eu disse para a Heloísa: “Heloísa, eu não vou fazer mais tese nenhuma. Eu vou embora, estou muito velha para aguentar essas burrices”. Cheguei em casa e Callado estava às gargalhadas: “Ana Arruda, o que você aprontou?” Eu disse: “Eu não aprontei nada”. “Heloísa me telefonou, dizendo que iam lhe internar no Pinel, que é logo ali ao lado da escola”. Eu disse: “Ah, Heloísa está fazendo onda. É porque eu disse que não ia completar o doutorado.” “Por quê?” Aí eu pensei assim: “Vou conversar com a Helô, melhor”. Eu disse: “Helô, você quer que o meu marido me interne?”. E ela: “Ana, é uma loucura você já fez todos os créditos, o seu projeto é ótimo”. Eu disse: “Heloísa, mas eu disse a você que vou fazer a história da Geni Pimentel e da revista dela, Valquírias. Onde é que eu meter esses teóricos todos?” Ela disse então: “Ana, faz como você quiser a tese, que eu banco. Eu arranjo uma banca inteligentérrima, que vai entender o seu trabalho”. Aí assim foi feito. Eu fiz uma tese, que não tem nada de tese. Quer dizer, não tem nada... Tem! Tem, é claro, que eu não sou maluca. Mas linguagem não era de tese. É a história da Geni, porque ela não ficou, ninguém lembra dela, porque ela não teve sucesso, a mulher que mais lutou para ser célebre, para ter sucesso, e não conseguiu. Porque ela trabalhou em um tempo, ela viveu em um tempo, em que uma mulher para ser reconhecida, tinha que ser, ou de família importantíssima, ou uma política militante. Naquele tempo a militância política era toda do Partido Comunista. Então, resumindo: tinha que ser ou grã-fina ou comunista. Se não, não tinha vez. E isso eu provei bastante. E até aproveitei uma coisa muito engraçada do Deleuze, que eu disse: “No fim, eu vou fazer uma gozação e vou citar o Deleuze”. O negócio das interseções, eu digo que é o surfista, que nada, nada, nada, chega lá, vem aquela onda maravilhosa, mas aí ele não tem prancha... Geni não tinha prancha... Enfim, defendi a tese. Tive a honra de ter Leandro Konder na minha banca, que adorou a história da Geni. E virei Doutora em Comunicação, uma coisa chiquérrima.


O que a estimulava na carreira? E o que a decepcionou?

Me aposentei na UFRJ e a PUC me chamou de volta, aí eu tive outro momento de PUC, de onde eu sou teoricamente até hoje, é que eu estou em licença sem vencimento. Mas a UFRJ foi muito melhor para mim do que a PUC. A PUC tem colegas maravilhosos, outro dia mesmo eu fui a uma festa, o pessoal é maravilhoso. Mas o alunado é diferente... O aluno da UFRJ é muito melhor. Porque na PUC tem aqueles alunos que não estão ali para estudar. Eles estão ali para se formar e não para ter uma carreira. Estão ali, porque papai e mamãe querem que ele faça um curso superior. Eu, inclusive, tenho uma história horrorosa, que eu, às vezes, perdi a paciência. Eu pedi a licença ao Miguel da PUC e disse: “Miguel, eu não posso mais ensinar. Eu estou me comportando mal na sala de aula”. E ele disse: “Ana, se comportando mal?”. Eu disse: “Ué, eu estou sendo grosseira, rude com os alunos, impaciente. E não está dando mais”. E ele disse: “Mas o que foi que aconteceu?”. Aí eu contei para ele duas histórias. Uma, minha culpa e outra, culpa do sistema de lá. É que uma menina começou: “Ah, mas eu não gosto de esporte. Vou ser obrigada também a fazer coisa de esporte?” Eu a disse: “Meu bem, faz o seguinte: vai trabalhar numa butique e larga o curso”. Aí a turma caiu na gargalhada. Eu fiquei meio assim, eu não podia ter dito isso. A pessoa não pode ser grosseira com um aluno. Aí, quando ela foi saindo, eu disse: “Desculpe, eu não devia ter dito aquilo”. Aí ela disse: “Não, não tem importância não, é isso mesmo”. Aí a que veio atrás dela disse: “Professora, ela é dona de butique”. Então, tem essa diferença. Ah, outra coisa foi um negócio de um celular. Aí eu vi que eu estava ficando velha demais para dar aula, porque toca o celular e o menino atende e sai da sala de aula, coloca a cadeira para o lado, e eu no meio de uma fala. Quando ele voltou, esperei um tempo, continuei a aula e depois disse: “Não vai fazer mais isso na minha sala. Isso aqui é um local de trabalho. Eu estou trabalhando e vocês também deveriam estar, porque em uma aula o trabalho não é só do professor, é de vocês também. A gente tem que respeitar o local de trabalho. Então ninguém vai atender o celular aqui. A não ser que esteja com a mãe ou com um filhinho de menos de seis meses na UTI”. Aí, outra vez, na saída da aula, todo mundo ficou sério. Na saída, um aluno me disse assim: “Ana, acontece que, aqui na PUC, professor atende celular dentro de sala de aula”. Aí digo: “Não dá mais, não dá mais”. Se o professor não respeita o trabalho dele, como é que eu vou dizer para os meninos que eles têm que respeitar? Aí eu estou em licença. Mas estou doida para voltar!


O que você acha dos cursos de jornalismo da atualidade? Em que pontos eles são eficientes, e em que pontos precisam melhorar?

Os cursos de jornalismo. Bom, eu dei aula em quatro diferentes: CUP, UFF, PUC e UFRJ. E vou muito às coisas da FACHA, e coisa e tal, falar para aluno. Olha, eu acho que o curso de jornalismo não é pior nem melhor que os outros cursos. Eu acho que a universidade está muito ruim. Ou melhor, há cursos bons, assim: “Tal universidade tem um excelente curso de Biologia, tal universidade tem um excelente curso de Geologia”. Mas, são exceções. Em geral, o curso superior está muito ruim. O nível do curso superior hoje é o nível do segundo grau antigamente. Eu nunca me esqueço, por exemplo, que um dia um aluno da PUC do quinto semestre, disse assim: “Eu não estou entendendo como é que econômico tem acento e economia não tem?” Quer dizer, eu expliquei, mas a minha vontade foi de dizer: “Volte pro fundamental, meu benzinho, porque isso é do curso fundamental, né?” Então, o ensino no Bra