O processo de demarcação das propriedades específicas da linguagem jornalística sempre oscilou por movimentos de aproximação e de distanciamento da literatura, como mostra a retomada constante da questão sobre as fronteiras entre literatura e jornalismo, segundo destaca Souza (2010)*. A reportagem simboliza historicamente uma forma a partir da qual se afirmou a identidade jornalística (RIBEIRO, 2007)**. No entanto, a afirmação dessa identidade nunca abriu mão de alianças ocasionais com a literatura e por isso, reitera Souza (2010), a literatura pode ser considerada uma “alteridade estilística” preferencial para distinguir a boa e a má expressão jornalística. Por um lado, a literatura deve ser negada, para a afirmação do jornalismo com características próprias; por outro, fornece referências e base para o trabalho de qualidade.

Também, desde os anos 1940, ambas viveram, de maneira relativamente vitoriosa, lutas por autonomização (de alguma forma, “viraram as costas” uma para outra). Atualmente, trata-se de constatar que os relatos de autonomia a respeito das áreas jornalística e literária, construídos ao longo do século XX, em termos profissionais e/ou acadêmicos, vêm sendo redimensionados. E os contatos que, na verdade, sempre existiram na prática, ganham novas visibilidades, materialidades e mesmo formalizações e ensaiam novas relações no cotidiano, incluindo toda uma cadeia de novas perguntas feitas sobre o passado.

O atual dossiê, portanto, convida autores a contribuírem com textos que possam refletir sobre os atravessamentos, as tensões e as reconfigurações relacionados ao jornalismo e à literatura, a partir de sua presença cotidiana, na contemporaneidade e/ou em diferentes momentos históricos. Alguns tópicos de sugestão a serem analisados poderão se referir, de maneira entrecruzada, entre outros, a:
- Contornos e fronteiras ético-estéticas relacionados a movimentos literários que atuem na formação de paradigmas vigentes para a prática e a reflexão jornalísticas em determinados momentos históricos;
- Práticas editoriais que se relacionam ao universo jornalístico e literário e suas relações na produção de livros, periódicos e outras publicações: passados, presentes e futuros.
- A crítica literária em jornais e/ou revistas: o crítico como agente de articulação das redes comunicacionais em que se encontram a presença da imprensa periódica e a do livro; o entrecruzamento de saberes.
- Reflexões sobre o hibridismo das construções textuais e as tensões entre realismos e ficcionalidades no âmbito das relações entre jornalismo e literatura.
- Reconfigurações e influências históricas da materialidade dos suportes no fazer textual jornalístico e literário: tensões e contornos entre o analógico e o digital;
- Jornalismo e literatura como formas de leitura analítica do cotidiano: potencialidades, lacunas e contribuições para a elaboração de um pensamento sobre a vida social.

* SOUZA, Candice Vidal e. Repórteres e reportagens no jornalismo brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.
** RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Imprensa e História no Rio de Janeiro dos anos 1950. Rio de Janeiro: E-papers, 2007.

Editores convidados: Rachel Bertol (UFF) e Fred Tavares (UFOP)

Prazo para submissão: até 31 de março de 2020

Data da Publicação: Maio de 2020